sábado, 8 de novembro de 2014

JOÃO CABRAL DE MELO NETO – A TRANSFORMAÇÃO DO ABSTRATO EM OBJETO

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

SOUSA, Maria da Conceição José de. João Cabral de Melo Neto - a transformação do abstrato em objeto. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p. 02. 19 nov. 2014.

Maria da Conceição José de Sousa

         Dono de uma temática que vai de uma influência surrealista à poesia popular, João Cabral de Melo Neto aborda em suas obras os problemas sociais do nordeste, bem como assuntos relacionados à arte e ao futebol. Em sua primeira obra Pedra do sono (1942), podemos observar além da influência surrealista a sua metapoética marcante.
                       
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.

Nos versos destacados o poeta nos mostra o fazer poético. Que para ele é feito de forma racional.
            A partir da obra Engenho, João Cabral afasta-se da tendência surrealista e busca uma exatidão da linguagem, aprofundando esse objetivismo nas obras posteriores, dessacralizando os versos de sentimento ou introspectivo. Já que para ele fazer poesia era como fazer uma composição, portanto, não necessitaria de inspiração. Em Cadernos de literatura brasileira do Instituto Moreira Sales (2007) João Cabral de Melo Neto afirma o que aqui foi mencionado: “Para mim, a poesia é uma construção, como uma casa. Isso eu aprendi com Le Corbusier. A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada – de fora para dentro”.
            Não se trata de considerar João Cabral o poeta sem “sentimentos”, mas de uma grande habilidade com a concretude das palavras, pois para ele fazer poesia é como catar feijão, é um trabalho árduo como os dos trabalhadores braçais e minucioso como o trabalho de um engenheiro, onde há necessidade de fazer e desfazer o texto várias vezes até que as palavras fiquem da forma mais adequada.
            No que se refere a transformação do abstrato em objeto, observamos de forma notória nos versos que aborda o nordeste brasileiro, onde o autor busca não apenas referir-se ao objeto ou situação, mas tenta imitá-lo, a ponto de fazermos senti-lo na poesia. Em O Cão sem Plumas a fome (abstrata e indescritível) ganha caráter de paisagem de forma metafórica:

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
Onde a fome
Estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

Nesses versos a dimensão complexa da fome é retratada de forma tão concreta que podemos “sentir” a fome de forma “real” ao imaginarmos através da comparação com o rio Capibaribe a amplitude do mesmo e a vastidão da fome - fome de vida e de comida.
Observamos a secura da paisagem de um canavial nos versos a seguir, a partir de uma linguagem também “seca”:

A paisagem do canavial
Não encerra quase metal.
Tudo parece encorajar
O cupim, de cara ou de mar.
           
Poderíamos citar inúmeros versos das obras de João Cabral que retratam essa transformação do abstrato em objeto, mas citaremos apenas mais um trecho de uma das suas obras – A educação pela Pedra – onde retrata a dura realidade do sertão nordestino.

No sertão, a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse não ensinaria nada,
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.
           
Sentimos por meio destes versos a dureza da vida sertaneja de forma intrínseca, através das palavras duras e concretas. Pois, aqui fica claro que nessa realidade não há preocupação de aprender ou ensinar algo, há apenas a necessidade de sobreviver em meio à privação de tudo, em meio à fome, seca e “fraqueza” e ainda assim sobreviver acostumados com o que é pouco tendo a esperança de que algum dia tudo possa mudar. Na obra Morte e vida Severina é retratada essa esperança de mudança com a migração do sertanejo para a capital, Recife, mas, que ao longo do caminho encontra fome, miséria e morte de Severinos como ele. E ao chegar lá se depara com a mesma realidade, vivendo em condições precárias e pensa em desistir, porém não desiste, pois vê que mesmo que seja uma vida Severina, uma vida sofrida, vale a pena viver e que a cada vida que nasce, mesmo que tenha o mesmo destino da vida Severina, renova em cada Severino a esperança de uma vida melhor.

Referências
INSTITUTO MOREIRA SALES. Caderno de literatura brasileira - 10 anos. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Sales, 2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário