domingo, 2 de novembro de 2014

A LETRA ESCARLATE E O ADULTÉRIO FEMININO

NORMA GISELE DE MATTOS

Este artigo foi também publicado no jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência:

MATTOS, Norma Gisele de. A Letra Escarlate e o Adultério feminino. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, 22 out. 2014, p.06.



“Sei ensinar à minha pequena Pearl tudo o que aprendi com isto! Retorquiu Hester Prynne, apontando o dedo para a letra escarlate.” (Hawthorne, 2006,  p.103).

         Quando Nathaniel Hawthorne publicou A Letra Escarlate em 1850, tinha como uma das propostas discutir o adultério feminino. A obra foi aclamada pela crítica, mas provocou a ira da sociedade da época. Não é de causar nenhum estranhamento, já que até os dias de hoje, em pleno século XXI, o adultério ainda represente um tema “delicado”, em especial o feminino.
O livro narra a vida de Hester Prynne, durante os anos de 1642 a 1649, no século XVII, que tem uma relação fora do casamento, concebe uma filha e é condenada pela sociedade puritana de Boston, no auge do período colonial no então denominado “Novo Mundo”, a usar uma letra “A” vermelha (de adúltera ou adultério) pregada a suas vestes pelo resto de seus dias de vida. O “crime” de Hester vem à tona quando ela aparece grávida e seu marido, dado como “desaparecido” ou “viajando” não poderia ser o pai de sua filha. Pressionada pela sociedade local a revelar a identidade de seu “amante”, ela se recusa, provocando ainda mais a fúria dos puritanos. Hester só não é condenada a morte porque paira a dúvida de seu marido estar vivo ou não. O marido de Hester, Roger Chillingworth, reaparece na cidade bem no momento em que Hester está sendo julgada e resolve permanecer ali em segredo para tentar descobrir o nome do homem com o qual sua esposa se envolveu. Ele procura Hester mais tarde na casa dela e tentar arrancar dela o nome do pai de sua filha, mas, ela continua recusando-se a fazê-lo. Então eles fazem um pacto de segredo e ele passa a viver como médico na aldeia, tratando dos enfermos e tentando descobrir o segredo de Hester. O tempo passa e Hester sustenta a si e a filha, trabalhando como costureira, evitando a sociedade o máximo que pode. A criança cresce e a população tenta tirá-la da mãe, mas Arthur Dimmesdale, ministro, convence-os a deixar a menina e mãe juntas.  Elas sempre que estão em público são hostilizadas pelos locais.
            Quer saber mais? Leia o clássico A Letra Escarlate.
Na obra Nathaniel Hawthorne nos convida a refletir acerca de temas como bondade, honra, dignidade, adultério, desejo, vingança, hipocrisia, fanatismo religioso, moral e muito mais.
O que chama a atenção na obra é que as próprias mulheres puritanas são as que mais clamam pela condenação e expurgo de Hester. Seria “vingança” contra uma mulher que ousou dar vazão a seus sentimentos e desejos? Seria “raiva” de não ter a mesma coragem de viver de acordo com suas próprias convicções? Seria “puro fanatismo religioso”? O fato é que Hawthorne parece ter simpatia por sua “Hester”, talvez por seu envolvimento pessoal com as reminiscências da sociedade retratada na obra. O autor era bisneto de um dos juízes das famosas “bruxas” de Salém. Talvez, e só talvez, sua escrita seja uma forma de expiar seus “pecados” e “tormentos” advindos de sua herança familiar ligada aos puritanos.
Hester é uma mulher culta, estudada, bem fundamentada em seus valores pessoais. Ela com isso, ameaça, afronta e confronta a sociedade local. É uma personagem com um forte elemento “feminino” mais do que “feminista”. Luta por seus direitos. Lembrei então de Mary Shelley ao dizer que em relação à luta da mulher por igualdade pontuou: “Não desejo que as mulheres tenham mais poder do que os homens, apenas que tenham mais poder sobre si mesmas.” É assim que vejo o feminismo e é essa a imagem que penso que Hester representa.
Lidar com nossos fantasmas, temores, valores, dúvidas existenciais certamente é trabalho espinhoso. Entretanto, penso que vale a pena fazê-lo se quisermos viver e não somente existir. A literatura cumpre seu papel reflexivo ao tocar em temas como o adultério. O adultério ainda é tabu e nem sei se algum dia deixará de sê-lo. Importa dizer que o julgamento do outro é tarefa fácil, difícil mesmo é julgar a nós mesmos, nos colocarmos no lugar do outro, nos posicionarmos como seres pensantes e errantes sem com isso nos tornarmos palmatória do mundo. A obra é repleta de simbolismos riquíssimos, a espera de olhos e ouvidos ávidos por desvelá-los. Amor, desejo, adultério, preconceito, culpa e morte permeiam A Letra Escarlate.
Recomendo a leitura deste clássico, cujo autor era contemporâneo e desfrutou da amizade de outro grande autor de clássicos, Henry David Thoreau (de Desobediência Civil). Mas, isso é assunto para outra hora. Termino com um breve poema, de minha autoria, escrito a partir da leitura da obra.

Seria traição de Hester
Dar vazão a seu desejo?
Seria infidelidade
Ser fiel a seu coração?
Seria Hester o espelho
No qual as mulheres e homens de Boston
Não gostariam de se ver refletidos?
Seria então
Tudo uma grande contradição?
São só perguntas
Que povoam nossa mente
Em busca de solução
Paixão e desejo
Atormentando
Gerações
Provocando
Turbilhões
Assentando e acentuando
Preconceitos e julgamentos
E assim termino dizendo
Que o adultério de Hester
Segue sendo
Assunto a ser perscrutado

E fadado ao inacabado

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