segunda-feira, 24 de novembro de 2014

SABEDORIA TRÁGICA EM NIETZSCHE: DA METAFÍSICA À AUTOPOIESIS

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência

RODRIGUES, Demilson Moreira; SILVA, Patrícia Almeida da. Sabedoria trágica em Nietzsche: da metafísica à autopoiesis. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p. 02-02. 19 nov. 2014.

Demilson Moreira Rodrigues
Patrícia Almeida da Silva

O entendimento mais profundo da sabedoria trágica (afirmação da vida no seu vir-a-ser) está no Ecce homo, conforme aparecera anteriormente no Crepúsculo dos ídolos:

“O dizer sim à própria vida, mesmo nos seus mais estranhos e mais duros problemas; a vontade de viver, que se alegra com o sacrifício dos seus tipos mais elevados à própria inesgotabilidade – eis o que eu chamo dionisíaco, eis o que adivinhei como ponte para a psicologia do poeta trágico. [...]” (NIETZSCHE, 2008, p.54).

Em O nascimento da tragédia (1871), Nietzsche formula sua concepção inicial do trágico no apolíneo e dionisíaco, como expressões das forças vitais da natureza humana. O fato é que Nietzsche abandonou suas teses iniciais, voltadas para uma “concepção metafísica” de arte e de artista, e se lançou numa visão que ultrapassou os parâmetros estéticos, em direção a uma sabedoria trágica sobre-humana.
A evidência da independência do trágico em relação à forma da tragédia está em Assim falou Zaratustra (1885), em que, “superando o niilismo moral e metafísico, torna-se [Zaratustra] um filósofo trágico ao afirmar o eterno retorno e a inocência do devir como ponto culminante de um longo aprendizado”. (CASADO, 2010).
 Canção da noite é explicitamente caracterizado como um “ditirambo dionisíaco”. O ditirambo foi exaltado por Nietzsche em O Nascimento da Tragédia. Nele o homem é levado à intensificação das capacidades simbólicas, mas há o perigo que esse demoníaco cantar representava para o homem apolíneo que, “diante desse fenômeno, ficava assombrado e temeroso.” (MACHADO, 1997, p.85, apud CASADO, 2010). No Ecce homo, Nietzsche desmerece até mesmo a tragédia grega em nome do Zaratustra: “[...]Que linguagem falará um tal espírito, quando fala a sós consigo? A linguagem do ditirambo. Sou o inventor do ditirambo.” (NIETZSCHE, 2008, p.83).
Em O Nascimento da Tragédia o impulso de eternização dos acontecimentos da existência, era o critério de valor mais decisivo e mantém uma ligação com Zaratustra em termos da concepção da sabedoria trágica dionisíaca: o eterno retorno se apresenta independentemente da estética metafísica de sua primeira obra. No Ecce homo tal pensamento será considerado “a mais elevada fórmula da afirmação que em geral se pode alcançar [...]” (NIETZSCHE, 2008, p.74).
Conforme Casado (2010):

[...] a afirmação da existência em seu devir já não se faz unicamente a partir de uma transfiguração artística e, portanto, a vida já não depende necessariamente de uma justificação estética, mas pode ser criada como uma obra de arte, encontrando nesta apenas uma vertente para inspirar sua autopoiesis. (Grifo nosso).

O dionisíaco alcançou, pois, seu momento supremo. Tal postura afasta Nietzsche do saber socrático, platônico, cristão ou idealista. Configura-se, “[...] uma fórmula da máxima afirmação, nascida da plenitude, da super-abundância, um dizer sim sem reserva, até mesmo ao sofrimento, à própria culpa, a tudo o que é problemático e estranho na existência...” (NIETZSCHE, 2008, p.54). Afirmação, portanto, de seu caráter iminentemente trágico, um sim à vida, negação ao pessimismo, mesmo que velado, na filosofia, desde Platão. Deste modo, o próprio Nietzsche se anuncia “[...] como o primeiro filósofo trágico – isto é, o extremo contraste e o antípoda de um filósofo pessimista. Antes de mim, não existia a transposição do dionisíaco em pathos filosófico: faltava a sabedoria trágica”. (NIETZSCHE, 2008, p.55).
Voltar-se à vida, pois, como um palco do eterno devir, ser capaz de assumir seus aspectos terríveis, enfrentando suas incertezas, com a avidez de transfigurá-la, aceitando, por vezes, sua falta de sentido, e isto tomado como uma necessidade superior. Nisto consiste a sabedoria trágica dionisíaca.

Referências

NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo: como se chega a ser o que é. Tradução de Artur Morão. Covilhã: 2008.

CASADO, Tiago Souza Machado. Sabedoria trágica no último Nietzsche: o impulso dionisíaco para a vida. Kínesis, Vol. II, n° 03, Abril-2010, p. 60 – 71. Disponível em: http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/Kinesis/5_TiagoSouzaMachadoCasado.pdf Acesso em: 30 out. 2014.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

MAS O QUE É LITERATURA DE CORDEL?

Este artigo foi anteriormente publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

BRITO, Geni Mendes de. Mas o que é Literatura de Cordel? Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, 18 set. 2013, p.06.

Geni Mendes de Brito


Literatura de cordel é um gênero literário popular, escrito frequentemente na forma rimada, também conhecida no Brasil como folheto, uma vez que é impresso em folhetos como desenhos e clichês zincografados (impressão com lâminas de zinco) ou xilografados (técnica de gravura em madeira), também usadas nas capas.
Remonta ao século XVI, quando o Renascimento popularizou a impressão de relatos orais feitos pelos trovadores medievais e desenvolve-se até a Idade Contemporânea. Mantém-se uma forma literária popular no Brasil. Ganhou este nome em Portugal, porque tais produções eram expostas ao povo, também para comercialização, amarrados em cordões, estendidos em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas. Inicialmente, os cordéis, também continham peças de teatro, como as de Gil Vicente (1465-1536).
Foram os portugueses que transplantaram os cordéis no Brasil, instalando-se primeiramente na Bahia e mais precisamente em Salvador, por conta de ter sido a primeira capital da nação e ponto de convergência natural de todas as culturas. Dali se irradiou para os demais estados do Nordeste onde ganhou sua conhecida tipicidade: Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Hoje também se faz presente nos demais estados da federação como Rio de Janeiro, Minas e São Paulo. A tradição do barbante não se perpetuou: o folheto brasileiro pode ou não estar exposto em barbantes. O cordel hoje é vendido em feiras culturais, casas de cultura, livrarias e nas apresentações dos cordelistas.
As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores. Para reunir os expoentes deste gênero literário típico do Brasil foi fundada em 1988 a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com sede no Rio de Janeiro.
Na segunda metade do século XIX começaram as impressões de folhetos brasileiros, com suas características próprias. Os temas incluem fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas, temas religiosos, entre muitos outros. As façanhas do cangaceiro Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, 1900-1938) e o suicídio do presidente Getúlio Vargas (1883-1954) são alguns dos assuntos de cordéis que tiveram maior tiragem no passado. Não há limite para a criação de temas dos folhetos. Praticamente todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.
Os poetas Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e João Martins de Athayde (1880-1959) estão entre os principais autores do passado.

A Literatura de Cordel surge como meio incentivador para o ensino de literatura. Trata-se de um veículo de fabuloso fomento à identidade regional, foi por muitos anos a principal forma de veiculação de notícias em vários Estados do Brasil, principalmente no Nordeste. Manifestação artística viva em sintonia estreita com visão popular, a Literatura de Cordel oferece aos pesquisadores um espaço sempre aberto de reflexão sobre uma maneira peculiar, por vezes contraditória, mas não menos preciosa, de se pensar o mundo e de afirmar a identidade, traçando caminhos de subversão e de liberdade, protesto, convertendo o espaço poético numa arena de luta.

sábado, 8 de novembro de 2014

JOÃO CABRAL DE MELO NETO – A TRANSFORMAÇÃO DO ABSTRATO EM OBJETO

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

SOUSA, Maria da Conceição José de. João Cabral de Melo Neto - a transformação do abstrato em objeto. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p. 02. 19 nov. 2014.

Maria da Conceição José de Sousa

         Dono de uma temática que vai de uma influência surrealista à poesia popular, João Cabral de Melo Neto aborda em suas obras os problemas sociais do nordeste, bem como assuntos relacionados à arte e ao futebol. Em sua primeira obra Pedra do sono (1942), podemos observar além da influência surrealista a sua metapoética marcante.
                       
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.

Nos versos destacados o poeta nos mostra o fazer poético. Que para ele é feito de forma racional.
            A partir da obra Engenho, João Cabral afasta-se da tendência surrealista e busca uma exatidão da linguagem, aprofundando esse objetivismo nas obras posteriores, dessacralizando os versos de sentimento ou introspectivo. Já que para ele fazer poesia era como fazer uma composição, portanto, não necessitaria de inspiração. Em Cadernos de literatura brasileira do Instituto Moreira Sales (2007) João Cabral de Melo Neto afirma o que aqui foi mencionado: “Para mim, a poesia é uma construção, como uma casa. Isso eu aprendi com Le Corbusier. A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada – de fora para dentro”.
            Não se trata de considerar João Cabral o poeta sem “sentimentos”, mas de uma grande habilidade com a concretude das palavras, pois para ele fazer poesia é como catar feijão, é um trabalho árduo como os dos trabalhadores braçais e minucioso como o trabalho de um engenheiro, onde há necessidade de fazer e desfazer o texto várias vezes até que as palavras fiquem da forma mais adequada.
            No que se refere a transformação do abstrato em objeto, observamos de forma notória nos versos que aborda o nordeste brasileiro, onde o autor busca não apenas referir-se ao objeto ou situação, mas tenta imitá-lo, a ponto de fazermos senti-lo na poesia. Em O Cão sem Plumas a fome (abstrata e indescritível) ganha caráter de paisagem de forma metafórica:

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
Onde a fome
Estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

Nesses versos a dimensão complexa da fome é retratada de forma tão concreta que podemos “sentir” a fome de forma “real” ao imaginarmos através da comparação com o rio Capibaribe a amplitude do mesmo e a vastidão da fome - fome de vida e de comida.
Observamos a secura da paisagem de um canavial nos versos a seguir, a partir de uma linguagem também “seca”:

A paisagem do canavial
Não encerra quase metal.
Tudo parece encorajar
O cupim, de cara ou de mar.
           
Poderíamos citar inúmeros versos das obras de João Cabral que retratam essa transformação do abstrato em objeto, mas citaremos apenas mais um trecho de uma das suas obras – A educação pela Pedra – onde retrata a dura realidade do sertão nordestino.

No sertão, a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse não ensinaria nada,
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.
           
Sentimos por meio destes versos a dureza da vida sertaneja de forma intrínseca, através das palavras duras e concretas. Pois, aqui fica claro que nessa realidade não há preocupação de aprender ou ensinar algo, há apenas a necessidade de sobreviver em meio à privação de tudo, em meio à fome, seca e “fraqueza” e ainda assim sobreviver acostumados com o que é pouco tendo a esperança de que algum dia tudo possa mudar. Na obra Morte e vida Severina é retratada essa esperança de mudança com a migração do sertanejo para a capital, Recife, mas, que ao longo do caminho encontra fome, miséria e morte de Severinos como ele. E ao chegar lá se depara com a mesma realidade, vivendo em condições precárias e pensa em desistir, porém não desiste, pois vê que mesmo que seja uma vida Severina, uma vida sofrida, vale a pena viver e que a cada vida que nasce, mesmo que tenha o mesmo destino da vida Severina, renova em cada Severino a esperança de uma vida melhor.

Referências
INSTITUTO MOREIRA SALES. Caderno de literatura brasileira - 10 anos. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Sales, 2007.

OS GREGOS: RELIGIÃO, LITERATURA E MITO

Este artigo foi também publicado no jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência:

FERREIRA, Luís Fernando Ortega. SANTOS, Reinaldo Messias de Melo. Os gregos: religião, literatura e mito. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, p.02 . 12 nov.  2014. 

Luis Fernando Ortega Ferreira
Reinaldo Messias de Melo Santos

Na religião grega arcaica e clássica (séc. VIII e IV a.C.) não havia isto que chamamos de revelação, aliás, como outros cultos politeístas. Sendo assim, não haveremos de encontrar nela profeta ou messias, dogmas ou credo, igreja, a ideia do além e mesmo um livro sagrado, depositário da verdade a ser seguida. A convicção íntima dos gregos, a fé, os ritos, os deuses, portanto, se sustentam num vasto repertório de narrativas, de diversas versões e variadas interpretações, conhecidas desde a infância e alicerçada enquanto quadro mental.
A tradição oral, em primeiro lugar, é responsável por conservar e transmitir o conteúdo das narrativas sobre os deuses, os mythoi (famílias, genealogia, poderes, modo de ação, aventuras, conflitos, prerrogativas e honras que lhe são devidas); em segundo lugar, a voz dos poetas ocupa um lugar central na vida social e espiritual dos gregos como verdadeira instituição. A poesia fixa uma cultura comum, principalmente no que se refere às representações religiosas, quer se trate dos deuses propriamente ditos, dos demônios, dos heróis ou dos mortos.
      Põem-se um problema ao historiador das religiões: seriam, estas narrativas dramatizadas, documentos de ordem religiosa ou literária? Os mitos e a mitologia devem ser relacionados ao campo religioso ou literário?
     Como certeza, para os eruditos do renascimento, e mesmo aos cientistas até o século XIX, as narrativas lendárias conservaram, ao leitor atual, o espírito do paganismo.
Os historiadores da primeira metade do século XX apresentam outra perspectiva: o mito é visto com excrescência literária e “só poderia ter uma relação longínquas com a convicção íntima do crente engajado no concreto das cerimônias culturais, na série dos atos cotidianos que, pondo-o diretamente em contato com o sagrado, fazem dele um homem pio”. (VERNANT, 1992, p.27).
     Para A.-J. Festugière (História geral das religiões, 1944), citado por Vernant (1992, p.28) há de se esquecer a mitologia dos poetas para entender a religião grega e se voltar aos cultos mais antigos. Vernant (1992, p.28), no entanto, considera que “a rejeição da mitologia repousa num preconceito anti-intelectualista em matéria religiosa”.
O núcleo primitivo e universal de toda experiência religiosa é encontrado fora da inteligência, mas no sentimento de horror sagrado à evidência do sobrenatural (thambos). A base dos cultos mais antigos seriam as diversas formas tomadas pelo rito que emprega a mesma experiência do divino. O rito diversifica-se em função do deus particular, em função dos desejos e temores que o culto responde. Os poetas criaram figuras particulares com base nessa perspectiva comum do divino. Daí advém as narrativas. O deus invocado, por fim, torna-se único no momento para o fiel. O que ocorre, e isto é muito importante e o mais difícil de entender, é o apagar das diferenças e as oposições que num panteão distinguiam os deuses uns dos outros. Aproximam-se, assim, o politeísmo grego e o monoteísmo cristão. É claro que isto não agrada aos historiadores que procuram especificidades que dão às religiões sua fisionomia própria.
 Mito, rito, representação figurada são os três modos de expressão através dos quais a experiência religiosa dos gregos se manifesta. Não se pode tratar o mito como um projeto literário individual de caráter gratuito, mas devemos considerá-lo presos às forças coletivas, inscritas numa tradição. Implica isto um compromisso com o entendimento do público. O narrador trabalha segundo um fio condutor de uma imaginação lendária, mesmo quando parece inventar tudo.
       A decifração do mito opera segundo outras vias e responde a outras finalidades, diversas da do estudo literário. O mitólogo, neste sentido, busca reconstruir uma ideologia que é entendida como “uma concepção e uma apreciação das grandes forças que, em suas relações mútuas, seu justo equilíbrio, dominam o mundo – ao mesmo tempo a natureza –, os homens, a sociedade, e os tornam aquilo que eles devem ser”. (VERNANT, 1993, p.30).
      O mito não pode ser confundido com o ritual, mas não se opõe a ele também. Comporta, pois, aquele saber que é substrato da filosofia, mais explicito que o rito, mais apto a teorizar, mais didático. O culto, por sua vez, implica uma certa ideia de deus, é menos desinteressado e engajado nas considerações de ordem utilitária.            

Referência
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. Trad. Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1992.

domingo, 2 de novembro de 2014

A LETRA ESCARLATE E O ADULTÉRIO FEMININO

NORMA GISELE DE MATTOS

Este artigo foi também publicado no jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência:

MATTOS, Norma Gisele de. A Letra Escarlate e o Adultério feminino. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, 22 out. 2014, p.06.



“Sei ensinar à minha pequena Pearl tudo o que aprendi com isto! Retorquiu Hester Prynne, apontando o dedo para a letra escarlate.” (Hawthorne, 2006,  p.103).

         Quando Nathaniel Hawthorne publicou A Letra Escarlate em 1850, tinha como uma das propostas discutir o adultério feminino. A obra foi aclamada pela crítica, mas provocou a ira da sociedade da época. Não é de causar nenhum estranhamento, já que até os dias de hoje, em pleno século XXI, o adultério ainda represente um tema “delicado”, em especial o feminino.
O livro narra a vida de Hester Prynne, durante os anos de 1642 a 1649, no século XVII, que tem uma relação fora do casamento, concebe uma filha e é condenada pela sociedade puritana de Boston, no auge do período colonial no então denominado “Novo Mundo”, a usar uma letra “A” vermelha (de adúltera ou adultério) pregada a suas vestes pelo resto de seus dias de vida. O “crime” de Hester vem à tona quando ela aparece grávida e seu marido, dado como “desaparecido” ou “viajando” não poderia ser o pai de sua filha. Pressionada pela sociedade local a revelar a identidade de seu “amante”, ela se recusa, provocando ainda mais a fúria dos puritanos. Hester só não é condenada a morte porque paira a dúvida de seu marido estar vivo ou não. O marido de Hester, Roger Chillingworth, reaparece na cidade bem no momento em que Hester está sendo julgada e resolve permanecer ali em segredo para tentar descobrir o nome do homem com o qual sua esposa se envolveu. Ele procura Hester mais tarde na casa dela e tentar arrancar dela o nome do pai de sua filha, mas, ela continua recusando-se a fazê-lo. Então eles fazem um pacto de segredo e ele passa a viver como médico na aldeia, tratando dos enfermos e tentando descobrir o segredo de Hester. O tempo passa e Hester sustenta a si e a filha, trabalhando como costureira, evitando a sociedade o máximo que pode. A criança cresce e a população tenta tirá-la da mãe, mas Arthur Dimmesdale, ministro, convence-os a deixar a menina e mãe juntas.  Elas sempre que estão em público são hostilizadas pelos locais.
            Quer saber mais? Leia o clássico A Letra Escarlate.
Na obra Nathaniel Hawthorne nos convida a refletir acerca de temas como bondade, honra, dignidade, adultério, desejo, vingança, hipocrisia, fanatismo religioso, moral e muito mais.
O que chama a atenção na obra é que as próprias mulheres puritanas são as que mais clamam pela condenação e expurgo de Hester. Seria “vingança” contra uma mulher que ousou dar vazão a seus sentimentos e desejos? Seria “raiva” de não ter a mesma coragem de viver de acordo com suas próprias convicções? Seria “puro fanatismo religioso”? O fato é que Hawthorne parece ter simpatia por sua “Hester”, talvez por seu envolvimento pessoal com as reminiscências da sociedade retratada na obra. O autor era bisneto de um dos juízes das famosas “bruxas” de Salém. Talvez, e só talvez, sua escrita seja uma forma de expiar seus “pecados” e “tormentos” advindos de sua herança familiar ligada aos puritanos.
Hester é uma mulher culta, estudada, bem fundamentada em seus valores pessoais. Ela com isso, ameaça, afronta e confronta a sociedade local. É uma personagem com um forte elemento “feminino” mais do que “feminista”. Luta por seus direitos. Lembrei então de Mary Shelley ao dizer que em relação à luta da mulher por igualdade pontuou: “Não desejo que as mulheres tenham mais poder do que os homens, apenas que tenham mais poder sobre si mesmas.” É assim que vejo o feminismo e é essa a imagem que penso que Hester representa.
Lidar com nossos fantasmas, temores, valores, dúvidas existenciais certamente é trabalho espinhoso. Entretanto, penso que vale a pena fazê-lo se quisermos viver e não somente existir. A literatura cumpre seu papel reflexivo ao tocar em temas como o adultério. O adultério ainda é tabu e nem sei se algum dia deixará de sê-lo. Importa dizer que o julgamento do outro é tarefa fácil, difícil mesmo é julgar a nós mesmos, nos colocarmos no lugar do outro, nos posicionarmos como seres pensantes e errantes sem com isso nos tornarmos palmatória do mundo. A obra é repleta de simbolismos riquíssimos, a espera de olhos e ouvidos ávidos por desvelá-los. Amor, desejo, adultério, preconceito, culpa e morte permeiam A Letra Escarlate.
Recomendo a leitura deste clássico, cujo autor era contemporâneo e desfrutou da amizade de outro grande autor de clássicos, Henry David Thoreau (de Desobediência Civil). Mas, isso é assunto para outra hora. Termino com um breve poema, de minha autoria, escrito a partir da leitura da obra.

Seria traição de Hester
Dar vazão a seu desejo?
Seria infidelidade
Ser fiel a seu coração?
Seria Hester o espelho
No qual as mulheres e homens de Boston
Não gostariam de se ver refletidos?
Seria então
Tudo uma grande contradição?
São só perguntas
Que povoam nossa mente
Em busca de solução
Paixão e desejo
Atormentando
Gerações
Provocando
Turbilhões
Assentando e acentuando
Preconceitos e julgamentos
E assim termino dizendo
Que o adultério de Hester
Segue sendo
Assunto a ser perscrutado

E fadado ao inacabado