segunda-feira, 27 de outubro de 2014

UMA SENSIBILIDADE QUE NÃO SENTE?

IVANA FERIGOLO MELO

Em sua memorável obra Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (1997), Fredric Jameson, entre outras coisas, assinala uma mudança na dimensão afetiva e sensível dos seres humanos que habitam a sociedade onde impera a terceira fase do capitalismo (capitalismo tardio: de produção e consumo generalizado). Para o autor, o desenvolvimento de sentimentos e relações profundas e duradouras estaria cedendo lugar a impressões instantâneas ou momentos de intensidade, já que, diante da velocidade com que se processa a vida nessa sociedade, com que tudo acontece, aparece e desaparece, a possibilidade de reflexão, de memorização dos acontecimentos, de fixação em lugares, de acumular e dividir experiências, de desenvolver vínculos afetivos duradouros é diminuída. Lançando um rápido olhar para o entorno, vejo, com certo pesar, a realização, e de forma hiperbólica, do apontamento feito por Jameson. Como explicar o fato de pessoas atearem fogo em outra enquanto ela, desamparadamente, dorme na aba da igreja instalada no centro da cidade de Tangará da Serra, senão considerando, também, a falência da possibilidade de o ser humano guiar-se por sentimentos profundos. É a intensidade, impressão que se projeta fortemente e se consome em segundos, que parece engendrar essas desumanas ações e atitudes, inconsolidáveis, talvez, em caso de o ser humano refletir demorada e comedidamente, de desenvolver e cultivar afeto, consideração ou respeito. Não estou, aqui, descartando outros motivos desencadeadores da barbárie como a sensação de impunidade, a ausência do estado, a falta de limites, o preconceito, etc. Acho que eles, de alguma forma, estão ligados à sociedade da pressa, à míngua da capacidade de sentir e de refletir com profundidade e, consequentemente, à exacerbação da intensidade. Essa vida que se engendra sob os impulsos da velocidade da produção e do consumo parece estar, por um lado, acabando com nossa possibilidade de rememorar, de refletir, de desenvolver sentimentos duráveis (sejam de culpa, piedade, dor, pena, medo, etc.), e, por outro, estimulando o despertar da intensidade, da impulsividade, que desencadeia atitudes extremas, impensadas, insensíveis.  Ao que tudo indica, a escassez do sentir, que leva a banalização de tudo, inclusive do ato de matar ou morrer, também acomete os homens de um vazio tão intenso ao ponto de matarem para poder experimentar alguma sensação. O que fazer diante disso? Seguir marchando ao compasso da aceleração ditado por uma sociedade que, em prol da produção e do consumo desenfreado, nos força a fazer, a ver, a desempenhar mil e uma atividades, às vezes, simultâneas, e mata, assim, nossas possibilidades de sentir qualquer coisa, de pensar e avaliar com profundidade antes de realizar uma ação? Pergunto, porque não quero deixar de sentir, de me espantar diante da barbárie, de sentir dor, de sentir horror, de analisar, de gritar. A perda disso, penso, coincide com a morte do humano que, por sua vez, desencadeia atitudes bárbaras como o assassinato de Firmino Escobar da Silva.

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