sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O PRESENTE TRÁGICO

Este artigo também foi publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:
BISPO, Sâmela Pereira Querubim; GATTO, Dante. O presente trágico. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, 29 out. 2014, p.02.


Sâmela Pereira Querubim Bispo

Dante Gatto

            A sensibilidade trágica suscita o viver com intensidade. Isto implica o ressurgimento do mito e a ideia das pequenas histórias do cotidiano. A grande História, digamos assim, faz uma pausa. Vamos pensar nesse sentido.
Quando pensamos no trágico somos levados à tragédia, ao acontecimento grave, à catástrofe é não há nenhum erro nisto. Trágico sim, o acontecer! Mas a contemporaneidade requer de nós uma ampliação de tal concepção. Aliás não somente a contemporaneidade, mas a tentativa de abarcar o trágico na sua condição ontológica, antropológica e estética. A reflexão aqui encaminha-se antropologicamente.
            Subjacente à tragédia está a dinâmica do trágico, ou seria melhor dizer a tensão que leva ao trágico que podemos sintetizar, como propôs Nietzsche ao encontro de Dioniso e Apolo enquanto embriaguez e sonho, elementos inerentes à criação artística.
            O trágico nasceu da religião. Da religião dionisíaca. Os gregos já anunciavam a tragédia do paraíso perdido que o Cristianismo sintetizou na ambição de Eva dos frutos da árvore da ciência. Dioniso já era o anseio ao retorno à situação paradisíaca, que implicava o contato direto com o uno primordial, como Nietzsche argumentou. A religião dionisíaca constituía-se em festa, música, dança, embriaguez, com ou sem álcool, e orgia, principalmente no seu sentido de comunhão. Ora, os Gregos, já naqueles tempos das tragédias de Atenas, viviam atormentados pelo pragmatismo da realidade. E a morte da tragédia, engendrada por Eurípides, seguidor da dialética socrática (racional), não foi mais do que a evidência que o retorno não mais era possível, temporalmente. Mas podemos falar sim em retorno, um retorno cíclico por força dos arquétipos. O Cristianismo situou Deus no tempo histórico num processo amplamente revolucionário. A contemporaneidade, por sua vez, recuperou o tempo mítico, situação que não se efetivou sem profundas razões que vamos tentar examinar aqui, mesmo que superficialmente.
            Evidencia-se, na contemporaneidade, uma fúria de viver o presente. E o que é vivido “qualitativamente, com intensidade, se dedica a fazer ressurgir aquilo que já se encontra no próprio seio do ser, quer este seja individual, quer coletivo”. (MAFFESOLI, 2000, p.27). Nessa urgência, há uma ambiência de despreocupação com o dia seguinte, não é verdade? Está nisto o aspecto trágico do presente. Tal ambiência, podemos aproximá-la de um paganismo eterno. “Porque é efetivamente a essência do cristianismo que encontramos no projeto político, na concepção econômica da existência, ou na busca de segurança proposta pelas diversas instituições sociais”. (MAFFESOLI, 2000, p.28). É contra esse cristianismo que se insurge a contemporaneidade. A jovial efervescência contemporânea, a procura de todas as formas de prazer, tem origem no mundo antigo. Afinal, “Deus e o Estado foram, assim, maneiras ‘econômicas’ de pensar e de organizar as forças que ultrapassam o indivíduo. Estas inscrevem-se num processo dramático, racional e potencialmente dominável”. (MAFFESOLI, 2000, p.34). Há momentos, no entanto, que tais forças se voltam a tornar trágicas na medida que se tornam indômitas. O retorno ao arcaico caracteriza a contemporaneidade, um encontro ao aspecto sublime da beleza do mundo, o que, por fim, implica aceitar suas leis terríveis e temíveis. (MAFFESOLI, 2000, p.28).
O marxismo revelou-se também significativo em termos de perspectiva de futuro que foi ultrapassada, na medida em que a utopia socialista do comunismo é quase tão metafísica quanto a concepção de salvação dos Cristãos, condicionadas ambas a um dever que implica uma ilusória liberdade. Ora, estamos no despertar de uma “prometeana bacanal ativista”, como identifica Maffesoli (2000, p.29), em que a realização já não se consuma numa simples ação econômica, mas se expanda numa interação ecológica. Talvez isto signifique a passagem do domínio hegeliano-marxista, próprio da modernidade, a uma soberania estóica, guiada pelo destino. Tudo isso nos obriga a considerar o indivíduo na sua globalidade, no seu contexto. Na modernidade, coube a regência da razão, mas a contemporaneidade abarca sentimentos, afetos, humores, “tudo dimensões não racionais do dado mundano”. (MAFFESOLI, 2000, p.34).
Ao mesmo tempo do retorno dos arquétipos, no momento, se afirma o ambiente trágico. A concepção cíclica do tempo, os atos repetitivos da existência quotidiana indicam uma necessidade vital de regeneração. Necessidade antropológica da afirmação da vida, lembrando de Nietzsche mais uma vez, e contrariando às teorias fundamentadas no sentido da história quer seja divina ou profana. (MAFFESOLI, 2000, p.40).
           
Referência

MAFFESOLI, Michel. Uma vida sem objetivo: o retorno cíclico. In: ______. O eterno instante: o Retorno do Trágico nas sociedades Pós-Modernas. Lisboa: Instituto Piaget, 2000. p.26-43.

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