segunda-feira, 20 de outubro de 2014

DIALÉTICA

Este artigo também foi publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:
TORRES, Isamar Valdevino Froio. Dialética. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, 15 out. 2014, p.06.

Isamar Valdevino Froio Torres

Na acepção moderna, dialética, conforme Konder (2008), é o modo de pensarmos as contradições da realidade, o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em permanente transformação. A concepção metafísica prevaleceu ao longo da história (a linha do pensamento da metafísica ensinava que o movimento a mudança era um fenômeno de superfície), porque correspondia, nas sociedades divididas em classes, aos interesses das classes dominantes, sempre preocupadas em organizar duradouramente o que já está funcionando, sempre interessada em amarrar bem todos os valores e conceitos como as instituições existentes, para impedir que os homens cedam à tentação de querer mudar o regime social vigente.
Conhecidíssima é a dialética de Sócrates: consiste em perguntas que objetivam que o interlocutor chegue por si mesmo às conclusões do filósofo. A história do pensamento dialético estava já no pensador pré-socrático de Heráclito de Éfeso: exemplar é a ideia de que um homem não entra duas vezes no mesmo rio: ambos terão se transformado num eventual segundo mergulho. Coube-lhe o epíteto de obscuro já que negava qualquer estabilidade no ser. Contemporâneo dele, Parmênides concebia mudança só na superfície das coisas: a essência profunda do ser permaneceria imutável. A metafísica deste permaneceu em detrimento da dialética daquele. Coube a Aristóteles a introdução de princípios dialéticos em explicações dominadas pelo modo de pensar metafísico. Observou ele que damos o mesmo nome (movimento) a processos muitos diferentes que vão desde um mero deslocamento mecânico de um corpo no espaço, ou o aumento quantitativo de alguma coisa, até a modificação qualitativa de um ser ou o nascimento de um novo ser. Para explicar cada movimento precisamos verificar qual é a sua natureza.
Segundo Aristóteles, todas as coisas possuem determinadas potencialidades, os movimentos das coisas são potencialidades que estão se atualizando, isto é, são possibilidades que estão se transformando em realidades efetivas. Com seus conceitos de ato e potência, Aristóteles conseguiu impedir que o movimento fosse considerado apenas uma ilusão desprezível, um aspecto superficial da realidade; graças a ele, os filósofos não abandonaram completamente o estudo do lado dinâmico e mutável do real. A interpretação providencialista de Santo Agostinho (354-430) já se constituiu um passo que aproximava ciência e filosofia. Para o Bispo J. B. Bossuet (1627-1740), que deu outro passo, o encadeamento do Universo era determinação divina e a história decorria segundo causas naturais. Foi o Iluminismo, no processo de organização social da burguesia, que inseriu nova concepção do mundo para além do irracionalismo e do misticismo.
O espírito de confiança de Descartes em que todo o conhecimento é alcançável combina-se ao respeitoso distanciamento do divino proposto por Voltaire. A preocupação humana voltava-se às coisas terrenas, mas permanece ainda, no bojo do Iluminismo, a concepção de uma natureza humana inalterável. Nos tempos modernos, Hegel fez de toda a história da Filosofia um movimento dialético que culminaria no seu sistema filosófico. Podemos resumir a questão ao trinômio tese, antítese e síntese. A afirmação (tese) engendra necessariamente a sua negação (antítese), quando explicita uma contradição, porém a negação não prevalece como tal: tanto a afirmação como a negação são superadas e o que acaba por prevalecer é uma síntese, a negação da negação.
Marx e Engels inauguram o materialismo dialético. Isto significou inverter o sistema idealista hegeliano. A dialética, portanto, torna-se um instrumento de análise e crítica social com a finalidade transformar o mundo e não simplesmente interpretá-lo. A luta de classes representaria uma constante tensão social que moveria as sociedades humanas através da história. A partir dela, Marx desenvolve uma série de conceitos, tais como ideologia, alienação, superestrutura. Somente uma sociedade sem classes, poderia ser uma sociedade justa e pacífica. Vemos uma continuação do projeto crítico nas obras dos chamados teóricos de Frankfurt (Benjamin, Adorno, Horkheimer e Habermas) os quais utilizam as categorias marxistas na crítica da sociedade contemporânea.

Referência

KONDER, Leandro. O que é dialética. São Paulo: brasiliense, 2008.

Isamar Valdevino Froio Torres

Pesquisadora do grupo TRANCO: o trágico na contemporaneidade

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