segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O PERCURSO OBSCURO NA BR 262

Cindy Silva Cossolin

Hum... deixe-me ver se recordo do que aconteceu naquele dia, pois houve vários outros dias em que a mesma coisa aconteceu, não da mesma maneira, logico, criatividade e sigilo eram fundamentais e isso perdurou por dez anos comigo, se não me falha a memória. Esse é um dos momentos que passei com meu pai, não sei se consigo narrar outros no futuro, pois para mim foi praticamente um parto escrever tudo isso hoje. Nem eu mesma sei, o porquê escrevi. Acho que só queria desabafar. Pensando bem, não falei nada a respeito de minha família, não que isso seja fundamental para o decorrer da história, mas é interessante saber para que vocês tenham ideia da dinâmica que isso causa nos fatos.  Somos em cinco: meu pai João, minha mãe, minha irmã mais velha, eu e outra mais nova.
Meu pai tinha uma loja, Estrela Informática, no qual tinha o padrinho de minha irmã mais nova como sócio, o tio Felisbim. Passávamos muitos fins de semana na chácara do tio Felisbim. Lembro-me que lá era como um pântano, tinha muitas arvores, mato alto espesso e não poderia faltar em qualquer porta ou janela uma tela de proteção, como se fosse uma segunda porta, pois os mosquitos eram abundantes ali, fora presença de aranhas caranguejeiras, cobras e outros animais, típicos do pantanal sul-mato-grossense.
Tio Felisbim era para mim, na tenra idade que estava, um homem alto, falava alto e ria muito, tinha cabelos aloirados e pela idade alguns fios esbranquiçados pelo passar dos anos imagino. Os olhos muito claros, não me lembro se eram azuis ou verdes, seu corpo ficava vermelho quando muito tempo no sol. Diferente de meu pai, o queixo do tio era largo e de meu pai, bem anguloso, ele também ficava vermelho se muito tempo ao sol, tinha os lábios finos o oposto de Felisbim que eram grossos, meu pai mais magro, o tio mais robusto.
A chácara tinha uma casa mergulhada em um matagal e no seu interior, na sala de estar existia a boca de um jacaré morto pendurado, de modo que podíamos ver com detalhes seus enormes dentes afiados. Foi lá que pela primeira vez assisti ao filme Jurassic Park e a boca do jacaré lá na parede me fazia lembrar os dinossauros do filme, isso é muito fresco em minha memória, o clima, os animais, os churrascos envolvendo as famílias.
Tio Felisbim e meu pai revezavam as tarefas na recém-inaugurada empresa, pois ele morava na cidade e nós, cerca quarenta quilômetros de distância de lá. Chegou esse dia qualquer de meu pai ir à noite para a empresa, dar continuidade nos trabalhos que ali prestavam. Era um dia comum, acho que fui para creche, ou não me recordo de já ser fim de semana, ele resolveu me levar junto, então eu tomei banho e me arrumei para acompanhar meu pai até a cidade. Usei uma blusinha, um casaquinho e uma sainha, dei tchau para minha mãe que ficou com minhas irmãs e como qualquer outra criança, pedi para ir no banco da frente, meus pés mal tocavam o assoalho do carro, mas me sentia importante lá.
Durante o percurso, estávamos escutando música, não lembro qual, mas me sentia apreensiva. Passado a estrada de chão que dava acesso a BR 262, meu pai foi se transformando, ficando mais sério, porem sua mão vinha de encontro ao meu corpinho, ele com os olhos na estrada me desarrumava, levantava a minha blusinha, colocava a mão entre as minhas perninhas e me pedia para abri-las bem. Não gostei daquilo e fechei as perninhas com mais força, mas ele não desistia, e falava: abre as pernas filha para o papai, abre, é o papai aqui. Mas eu não queria, foi quando ele me olhou, aqueles olhos azuis claros que hoje os comparo com o olhar de um nazista para um judeu. Como de um monstro para sua presa, cheio de ódio, até suas sobrancelhas se uniam em uma só. Naquele momento não parecia ser meu pai e sim meu algoz.
Abri as pernas. Sua expressão já mudara nesse momento, se mostrou mais solto, porem agitado. Esfregava sua mão entre minha calcinha de bichinhos e minha genitália e com os dedos, alargava o elástico entre minhas coxas. Não contente mandava abrir ainda mais as pernas, até o ponto de elas doerem com o esforço de abertura, meus pés não tocavam mais o assoalho. Continuou passando os dedos na minha pequena vagina, e eu olhava para a porta do carro fechada, o tempo todo.
Me mandou tirar a calcinha de bichinhos, tirei, então me abriu as pernas outra vez com uma das mãos, passando impacientemente os dedos na minha pequena vagina, ainda sem sinal de pelos e apertando, o que hoje sei ser minha uretra, como se fosse uma pinça, isso doía muito, sentia tanta dor que fechava meus olhinhos na esperança de ele acabar logo de me violentar. Mas não, não ainda. Com a outra mão esfregava e apertava freneticamente sua genitália ainda vestida, porém não demorou muito até que ele afrouxasse seu cinto, abrisse o zíper de sua calça e a abaixava um pouco, apenas para expor-me seu pênis já ereto.
Não satisfeito, pegou a minha mãozinha, eu estava tão nervosa que meus músculos ficaram todos enrijecidos e meus dedinho fechados em punho. Meu pai me mandou abrir a mão esquerda e a colocou na base de seu pênis, sua mão grande e peluda sobre a minha pequena, foi fazendo movimentos que hoje entendo por masturbação, mas naquela época eu não sabia o que era aquilo, e até hoje sinto muito asco ao recordar desse momento. Ficávamos assim por alguns instantes que para mim parecia uma eternidade, eu continuava olhando para a porta do carro fechada e ele bulindo meu corpo e concomitantemente se masturbando com minha mão entre seu pênis nojento e sua mão monstruosa, ele ainda tinha a desfaçatez de me perguntar se eu estava gostando daquilo.
Eu nem sabia o que estava acontecendo, o que era aquilo, mas de alguma forma entendi que era errado, e não, não estava gostando nada daquilo, mas um medo inexplicável tomava conta da minha consciência infantil, confirmava, apenas balançando a cabeça de cima pra baixo, sem olhar para os seus olhos azuis aterrorizantes. Quando tudo acabava, me mandava pôr a calcinha de volta, já estávamos perto de chegar a loja, arrumava minha roupinha e sua expressão já era outra, mais tranquila. Ficávamos nos computadores da Estrela Informática, eu desenhando e ele trabalhando até a hora de voltarmos para casa. Mais um dia normal na minha infância. Acho que só queria desabafar.

O CARÁTER SUBVERSIVO DA POESIA

Dante Gatto
           
Quando escrevi anteriormente do caráter essencialmente subversivo da arte, indômita e iconoclasta por vezes, senti pairar no ar, no silêncio dos meus habituais interlocutores, um desconforto de incompreensão. Inclui-se, nesta inferência, estavam até os mais próximos às reflexões teóricas e produtores de textos poéticos. Nem pensei naqueles que querem a arte utilitária, meramente a serviço de alguma ideologia econômica, política ou religiosa, por conta do ridículo de suas teses. Devemos convir, no entanto, que há sutilezas no caráter subversivo da poesia, uma vez que a subversão não se apresenta sempre em seu estado acabado como previu Ferreira Gullar: “A poesia / quando chega / não respeita nada”. Mas, devemos convir, que a poesia vem chegando, vem chegando até a paroxismo de não respeitar nada e, como sabemos, não há fronteira entre preliminares e acabamento, não é? Argumentei algumas vezes da tensão que se estabelece entre a intensão da mensagem e a irresolução inevitável, suscitando um incômodo de alguma coisa mal resolvida, criando até um léxico particular. Ora, a subversão está subjacente. A dialética da pós-modernidade está na impossibilidade da síntese em detrimento ao remoer das contradições e agoniza-se num doloroso impasse que se faz estético também. O que estou tentando argumentar é que o envolver ou suscitar a contradição é, também, subversão.
            Sempre subversiva a poesia, ratifico agora e retifico, também, acrescentando um ponto fundamental, não apreciado adequadamente em outros momentos das minhas reflexões, apesar de tão óbvio. Ora, o próprio sentimento, essência de toda lírica, é subversivo. O poema não deixa de ser a tentativa de expressar com palavras os impulsos do sentimento. Sentir, todos vivenciamos isto, deve obedecer aos parâmetros adequados a nossa sociedade, voltada à produção e ao consumo. Consumir é preciso para produzir mais e alimentar a máquina que não para, mas se quer humana. Vivemos nessa roda viva, por vezes, ficando “[...] cara a cara / com o que não se quer ver”, como canta Chico Buarque. O tempo de produzir tem prerrogativa ao tempo de sentir. Sabemos disto e aprendemos, por vezes, de forma cruel: “engole tuas mágoas, meu irmão e parte para ganhar teu pão”, me disse alguém, certa ocasião, em que quase perdi o emprego, porque a serenata frustrada, temperada da cachaça do despeito, me engoliu o dia de trabalho. Bem, a obrigação do pão nosso de cada dia está ligada ao mito trágico do paraíso perdido, não é? A coisa vem de longe. Mas tenho, ainda, exemplo melhor de fato ocorrido recentemente. Fui banca, juntamente com outros professores e alguns artistas, de um concurso de poesia na Escola Estadual Vereador Bento Muniz, em Tangará da Serra, em que se deveria avaliar, além do poema, postura e declamação do poeta. Somente alunos dos primeiros anos participaram do evento, crianças e alguns poucos pré-adolescentes. Inclusive, a coordenadora do evento, apesar do entusiasmo, estranhou o fenômeno da ausência dos adolescentes. Tal ausência corrobora a minha tese. Mencionei, em outras ocasiões, o fato das agendas infantis estarem sempre carregadas de poemas e isto vai desaparecendo com a idade. Talvez, seria exagero dizer que é proibido sentir, mas a realidade reflete isto.
            Poderiam argumentar, acompanhando minha reflexão, que o tema do evento na Escola Bento Muniz (“Escola e família”), não se fazia adequado à subversão e, por conta disso, houve o afastamento dos adolescentes. Não se trata disso, em minha opinião, mas do utilitarismo que emprestamos a todas as nossas atividades. Afinal, para que serve a poesia, o poema? A criança, ainda infensa ao aproveitamento das coisas pelo capitalismo, embarca na escrita em versos, articulando rimas etc., que acordam emoções e os pais ali, acompanhando, sorrindo e até chorando ao ver e ouvir o filho, ou a filha, declamar o próprio poema. O adolescente, sintonizado em preocupações práticas, utilitárias, como emprego e vestibular, optou por não participar do que, talvez, tenha interpretado como um anseio infantil (a poesia) ou uma ridícula esperança de criança, pensando já como os próprios pais que os querem ver bem sucedidos na vida.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O COXINHA (O MODELO NACIONAL DO POBRE DE DIREITA) E O NAZISTA: UMA EXPLICAÇÃO PSICANALÍTICA PARA O FENÔMENO

Dante Gatto

        Incrível que Hitler tenha conseguido mobilizar o povo alemão e leva-lo à barbárie e ao holocausto, não é? Tristemente, trilhamos caminho similar à Alemanha nazista e, penso eu, podemos tentar entender a complexa estrutura psicológica do coxinha numa aproximação ao sinistro nazista e, aliás, tal comparação é corroborada pela figura quase inverossímil e não menos torpe de um fascista tupiniquim que eu me recuso a repetir o nome, mas todos conhecemos pelo descalabros das suas declarações e de conseguir, também, arrastar multidões à misoginia, homofobia e racismo em pleno século XXI. Penso, inclusive, que Chaplin teria dificuldade em ridicularizar nosso produto fascista como fez com o Führer, porque ele consegue ser ridículo pela própria natureza.
O sentimento nazista se aproxima ao do coxinha não só pela parecença de seus líderes e pelo fascismo subjacente em ambos os contextos. Maria Rita Kehl (1987) tratou o fenômeno nazista ao nível da repressão, explicando que se trata de repressão malsucedida, uma vez que, como explica, a repressão bem sucedida não deixa traços. A malsucedida, no entanto, deixa os sintomas: tentativas canhestras da psique de dar expressão ao que não pode ser dito, de trazer à luz o que está mantido à força, na obscuridade. O coxinha, cujo desempenho é inverossímil, parecendo uma criação mal-acabada de uma ficção científica, não quer ser coxinha, mas é a saída que lhe proporciona algum alívio.
Na repressão malsucedida, a energia do desejo não fica reprimida, mas a ideia que está associada ao desejo não é claramente identificada. A energia fica livre e dissociada do seu conteúdo, liga-se a outros conteúdos e desse modo gera os sintomas, no caso, o absurdo desempenho coxinha. Isto equivale dizer que o neurótico coxinha anseia e não sabe pelo quê, mas os mecanismos de defesa do ego estabeleceram uma coerência entre a personalidade e seus sintomas. Coerência, aliás, que só o coxinha entende. Ele pensa que sabe o que quer, porque associa seu desejo à expressão da realidade que pode entender. Vejam que o coxinha só vai exalar sandices, limitado sempre a superfície do problema.
Completa Kehl (1987): “a repressão é um mecanismo insuficiente para dar conta do excesso de energia que não encontra meios de descarga. A repressão dissocia, aliena, faz da pessoa uma cega para os seus desejos, ignorante sobre o que é bom para ela”. Palavras bem adequadas ao pobre de direita. Ora, trata-se de circunstâncias propícias para se tornar presa fácil de lideres totalitários, como estamos assistindo, que, novamente Kehl (1987), “prometem alívio para as angústias de prazer que acompanham todas as tentativas de retorno do reprimido”. O coxinha reconhecerá tal liderança, como o nazista também o fez. A repressão, portanto, torna-se condição da obediência: “quem não sabe o que quer, quer aquilo que lhe dizem o que ele deve querer.” Não é outra a razão que explica a adesão do “pobre povo alemão” ao nazismo e agora, quase um século depois, do pobre povo brasileiro a quem o valha.
Há de se guardar algumas diferenças que, talvez, faça parte da idiossincrasia brasileira, combinada à dialética da realidade: o nazista era modelar, mas o coxinha é multifacetado; o nazista era (ou ainda é) chauvinista, representante de um conceito da raça ariana, mas aqui (Brasil) e agora a expressão reacionária por vezes é compactuada pelas próprias vítimas dela e temos o coxinha pobre, bem como, por vezes, mulheres, homossexuais e negros louvando a chibata que lhes sangra o lombo e respondendo com violência, afinal, com lembra ainda Kehl (1987): “a energia desprovida de significados torna-se matéria bruta das paixões”.

Referência


KEHL, M. R. A psicanálise e o domínio das paixões. In: CARDOSO, S. et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 469-496.

sábado, 11 de novembro de 2017

O TRÁGICO DA TRAIÇÃO CONJUGAL OU O CORNO NA PÓS-MODERNIDADE

Dante Gatto
           
O mundo mudou muito por conta da história da civilização. A vida também. Da expulsão do paraíso ou coisa que o valha, da multiplicação sob ordem do Criador... a individualidade foi nossa única saída. Depois houve todas as revoluções do dinheiro, intensificando nossa solidão e se deu sentido à vida psicológica por conta da inevitável produtividade do espírito. A verdade foi se fazendo interior, particular, pessoal na tragédia da convivência e se a consciência foi sempre significativa da dor mais profunda do ser ela foi ganhando, sempre, mais importância no universo da individualidade. Disso tudo o presente, o aqui e o agora voltaram a ser vividos com intensidade. Na nossa contemporaneidade, Dioniso voltou a ser cultuado: o deus do presente, da abundância dos sentidos, da festa. A trágica fuga de si mesmo para si mesmo. Não deixamos de ser animais gregários, só afinamos o encontro com os nossos iguais à consciência dos sentimentos mais íntimos. Onde quero chegar com essa conversa? Quero chegar à mais íntima traição: somos por vezes infiéis a nos mesmos, na medida que traímos nossa consciência. Eis o adultério que vos falo. Há de se ter sensibilidade para viver tal fenômeno.
            A traição sempre foi trágica, robustecida ainda pelas contradições do patriarcalismo. Nem precisava dizer, mas o amor é também muito trágico e principalmente o casamento, na medida em que impomos uma orientação racional que, nem sempre, o coração aceita, este órgão estranho, que dói com as emoções.
            Quando se trata de fenômenos ufológicos admite-se a terminologia da relação à “contatos imediatos”. Há uma hierarquia de zero grau que é quando você vê um objeto voador não identificado até o contato imediato de quinto grau em que há intimidade: você entra no disco voador etc. Transferindo tal classificação para a traição conjugal e considerando a perspectiva da pós-modernidade que implica alto grau de consciência de si mesmo podemos refletir preliminarmente os contatos imediatos da traição. O quinto grau, o contato íntimo, não podemos mais vê-lo na esfera física, nem puramente psicológica, mas nossa completa inserção na situação com consciência e desejo de autorrealização.  Por exemplo, no casamento que permanece sem amor, com acomodação dos cônjuges: cornos. Há o caso que acompanhei recentemente do marido que sabe que a mulher não o ama mais, sente seu distanciamento, mas ela permanece casta, presa às hostes do contrato matrimonial: corno. Sem contar os casos clássicos de casamento por interesse: corno. Há não muito tempo se lavava a honra com sangue e a adúltera era execrada. Hoje a situação se eleva a um suave conformismo, uma doce aceitação e a situação ganha sentido a partir de um amor sem máculas, “fiel a sua lei de cada instante”.
A pós-modernidade recupera o mito de Tristão e Isolda, em que o amor espontâneo tem mais significação que o casamento imposto. Houve uma clara mudança de sentido na traição. Já não é mais uma traição ao casamento, mas uma traição pelo casamento.
Outros detalhes mais superficiais da realidade corroboram minha tese. A mulher já não está mais tão dependente ao casamento. Seu lugar social e autorrealização podem se fazer em detrimento dele inclusive, cada vez com mais naturalidade, bem como a maternidade fora do casamento. Ora, trair agora não é mais enganar o cônjuge, mas se casar sem amor. E guardados o sentido ético, talvez, em determinados casos, o adultério seja a dignificação pelo amor e a superação do estado de corno.
Se você está achando esta conversa por demais extrema e quase sem sentido fique calmo que tal situação ainda ganhará clareza na tua consciência. Por vezes, a realidade se transforma e nosso discurso, até o nosso lirismo, custa a acompanha-la e ficamos naquela conjectura da não comunhão de prática e teoria e fugimos de viver. A vida não é o que queremos fazer dela com a imperiosa necessidade de racionalismo que nos é imposta. Um discurso extemporâneo tem também muito de trágico por conta de respostas violentas de quem se recusa a aceitar a dinâmica da realidade e a nossa necessidade de abarca-la com palavras.
Por fim, nunca foste traído e mesmo pensa nunca ter traído, mas um estranho desconforto incomodamente se acomoda no horizonte das tuas apreensões mais íntimas? É a dor de corno da tua autotraição. Perdoa-te.

domingo, 22 de outubro de 2017

COMO NARRAMOS AS NOSSAS VICISSITUDES DIZ MUITO SOBRE NÓS: UMA REFLEXÃO A PARTIR DO MOVIMENTO LITERÁRIO

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tangará. Segue, abaixo, a referência:

WEBER, Clairton José. Como narramos as nossas vicissitudes diz muito sobre nós: uma reflexão a partir do movimento literário. Jornal Tangará (ISSN 2527.127X), Tangará da Serra, p. 06, 25 out. 2017.

Clairton José Weber

O termo “realismo” surgiu em literatura nas obras de Champfleury nos anos 40 do século XIX, conforme ensina Hênio Tavares em sua Teoria Literária. Madame Bovary (1857) é a mais bem elaborada obra de Gustave Flaubert que criticou severamente as convenções burguesas do seu tempo e firmou a nova escola literária na Europa.
No Brasil, a prosa realista já se encontra no romance ‘Memórias de um sargento de milícias’, de Manuel Antônio de Almeida, obra concebida ainda em plena efervescência romântica; e ainda sob certos aspectos, nas obras de Visconde de Taunay e de Franklin Távora, para, enfim encontrar na fase de maturidade de Machado de Assis, a expressão culminante, através de seus romances psicológicos (TAVARES, 1989, p. 74-75).
Hênio Tavares, quando fala da obra de Franklin Távora poderia estar se referindo ao romance O cabeleira (1876). Nele realmente vamos encontrar em boa medida elementos da escola realista. As personagens criadas pelo realismo são indivíduos concretos, retratos fieis de seres ou pessoas.
Nos diálogos, contudo, o autor ao dar a palavra a determinada personagem, procura reproduzir realisticamente a sua fala, conforme o grau de cultura da mesma e do seu ambiente. Assim, um matuto não se expressará como um doutor, ou um índio não discorrerá no irrepreensível português de um Peri romântico (TAVARES, 1989, p. 78).
Nem sempre isso acontece. Em O cabeleira quando o narrador passa a palavra aos personagens, o estilo clássico e elitizado contrasta com a vida rústica e a completa ausência de instrução. Talvez seja neste ponto que Távora tenha justificado as críticas que recebeu. A título de ilustração trazemos aqui o seguinte diálogo:

– Luisinha! Exclamou o bandido. Tu me pertences.
– Que dizes, Zé Gomes? Interrogou Joaquim sem poder bem compreender o que ouvira ao filho, que lhe pareceu alucinado (TÁVORA, 2005, p. 100).

Quem leu O cabeleira sabe perfeitamente que as personagens envolvidas neste diálogo são desprovidas de qualquer instrução. O cabeleira (Zé Gomes) – protagonista da obra – simplesmente foi retirado do convívio da mãe ainda criança e criado literalmente no meio do mato. A expressão “Tu me pertences”, do início do diálogo transcrito, está deslocada e só seria aceitável, digamos assim, se proferida pelo narrador. E este, como se sabe, também vai mudar com o Modernismo.
A protagonista do romance de Jorge Amado e que dá nome a obra Tereza Batista cansada de guerra já nos anos maduros do Modernismo, sem papas na língua vai dizer:

Homem que bate em mulher não é homem, é frouxo...
Está em frente ao galalau, ergue a cabeça e lhe informa: [o narrador]
... e em frouxo eu não bato, cuspo na cara (AMADO, 2008, p.20).

N’o cabeleira as descrições são realistas, de modo que o descontrole emocional do ser humano é descrito com riqueza de detalhes. Elaborado no período Romântico brasileiro e com alguns lampejos de realismo-naturalismo, o romance intercala personagens históricos, locais específicos e fatos verídicos, com a ficção. Távora inseriu no seu texto denúncia social, traços de períodos literários que só alguns anos mais tarde se consolidariam. Fez isso com o apoio da “ficcionalização” de personagens reais, apoiados por outros sabidamente fictícios.
Memórias de um sargento do Milícias (1852/53) de Manuel Antônio de Almeida, é outra obra apontada por Hênio Tavares que foi gestada no período romântico e apresenta traços realistas. Num estilo jornalístico e direto, a obra incorpora, por assim dizer a voz da rua, contrastando com o estilo vigente, onde os autores se reportavam invariavelmente ao período do Rei D. João VI e as intrigas da corte. Memórias de um sargento de milícias é narrado em terceira pessoa porque o autor, Manoel Antônio de Almeida construiu o enredo a partir dos relatos de um colega de trabalho da redação do jornal em que trabalhava.
A personagem protagonista de Memórias de um sargento de milícias viveu na escola do crime, ou seja, as ruas. O autor sugere que tenha sido exatamente essa “experiência de vida” que tenha levado o protagonista a incorporar as forças de segurança pública. Esse conhecimento, presumia o chefe de polícia, poderia ser útil nas investigações e elucidações dos casos mais complicados. Manoel Almeida, nesta mesma narrativa conta episódios situados temporalmente no início do Século XIX, mas que se verificam na realidade não ficcionada dos dias eu correm. “Já naquele tempo (e dizem que é defeito do nosso) o empenho, o compadresco, eram uma mola real de todo o movimento social” (ALMEIDA, s.d., p. 173). Né?

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
AMADO, Jorge. Tereza Batista cansada de guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
TAVARES, Hênio. Teoria literária. 9. ed. Belo Horizonte: Itatiaia,1989.
TÁVORA, Franklin. O cabeleira. São Paulo: Martin Claret, 2005.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

“CONHECE-TE A TI MESMO”

Vagner Braz

O homem nasce, cresce, morre. Para muitos cientistas esse processo é conhecido como “o ciclo natural da vida”. Nesse ensaio não queremos negar esse termo, porém, produzir mais subsídios ao estudo do Trágico.
Essa é a natureza trágica da vida: totalmente trágica. Entretanto, o que é a vida? A vida é vista como algo concreto. Ou seja, real em si mesma, porque diz respeito a cada ser humano de forma bastante singular. Todavia, o que seria a vida para um indivíduo em pleno leito de morte? Ou até mesmo, para um indivíduo condenado à morte? 
Para o indivíduo que está prestes a morrer, a vida pode ser considerada o último suspiro que lhe resta, um momento único, no qual o que mais vale é aproveitar até o último sopro de vida. Assim sendo, a vida é algo precioso, quando escrevemos, matutamos, experimentamos, vivemos, ora, a vida em si é valiosa. Logo, ao recordarmos de quando éramos crianças, percebermos o quanto tínhamos a alegria de viver, contudo, porque perdemos essa afoiteza, típico da meninice? Podemos dizer que o tempo, assim como a água que segue o curso do rio, acaba demudando para não regressar.
A alegria de viver é o princípio essencial para encontrar o sentido da própria existência. Arthur Schopenhauer (1788-1860) assinala que “nascimento e morte pertencem à vida e equilibram-se mutuamente como condições recíprocas, ou melhor, como polos do fenômeno total”. Nesse sentido, o pensamento é quase importante contra a poderosa voz da natureza trágica da vida, e certifica o filósofo: “no homem, portanto, como no animal que não pensa, reina permanentemente esta segurança, oriunda da consciência profunda de ser ele próprio a natureza e o mundo”
Ao tomar esta perspectiva de pensamento, nos deparamos com a reflexão trágica em que a sociedade contemporânea se encontra, em que vivemos num mundo globalizado, no qual o homem ganha informações a todos os momentos, influência dos meios de comunicação, da economia etc. Viver é um espetáculo, no entanto, existem dificuldades, tais como, o desemprego (que atingem até pessoas capacitadas para o mercado de trabalho), a discriminação (pela cor, pelo sexo, pela política, pela religião, pela orientação sexual e até mesmo pela idade), a doença (a fatalidade da humanidade, por exemplo, a Aids, o Câncer),  que podem levar à exclusão social.
A consciência do trágico é humana. Assim, o homem é ele e suas circunstâncias porque está enraizado numa peleja que se chama viver, pois para articular o processo precisa buscar/lutar, como um gladiador no palco de duelo, com todas as suas forças. Mesmo assim, o seu destino tende a ser trágico, principalmente, porque levará à morte. 

Referências


SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação: Livro IV. Trad. Heraldo Barbuy. Disponível em: <http://coral.ufsm.br/gpforma/1senafe/biblioteca/schopenhauer_o_mundo_como_vontade_pt4.pdf>. Acessado em 09 de Dezembro de 2014, ás 00h57min.

domingo, 8 de outubro de 2017

O TRÁGICO ENTRE-LUGAR NOS CONTOS DE JOSÉ DE MESQUITA

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tangará. Segue referência abaixo: 

SILVA, Josiane Lopes da. O trágico entre-lugar nos contos de José de Mesquita. Jornal Tangará (ISSN 2527.127X), Tangará da Serra, p. 06, 11 out. 2017.

Josiane Lopes da Silva Ferreira

Há milhares de anos povos transitam de um lado para outro à procura de melhores condições de vida, numa constante inquietação. A primeira “diáspora” (HALL, 2008) que temos nítida em nossa memória encontra-se escrita no livro Êxodo, da Bíblia Sagrada, em que relata a fuga do povo hebreu do Egito para a Terra Prometida.
Edward W. Said foi quem primeiramente abordou o conceito de entre-lugar causado pela hibridação das culturas que gera o sentimento do não pertencimento: “Desde minhas mais remotas lembranças, sentia que pertencia aos dois mundos, sem ser totalmente de um ou de outro”. (SAID, 2011, p. 29).
O autor indiano Hommi Bhabha em seu livro O Local da Cultura (1998) questiona esse sentimento e afirma: "De que modo se formam os sujeitos nos ‘entre-lugares’, nos excedentes das somas das ‘partes’ da diferença?” (BHABHA, 1998, p. 20).
 Bhabha (1998) ressalta que a tradição transmitida de geração a geração é uma forma de identificação, mas que muitas vezes fica comprometida quando esta se perde no tempo e ao reviver o passado acontecem mudanças, o indivíduo entra em conflito e é dessa forma que o conceito de entre-lugar afeta as pessoas e provoca essa “crise existencial” constituindo um elemento da tragicidade da vida.
Partindo da perspectiva do trágico, conforme Nietzsche, para o conceito do entre-lugar vamos observar os contos “A Magia do Luar” e “A Provinciana” do livro A Cavalhada (1928) de José de Mesquita e de que maneira esse conceito afeta as pessoas em sua normalidade, por não encontrarem um “porto seguro” das "grandes certezas", gerando uma crise existencial.
            Implícito à tragédia está a dinâmica do trágico, ou seria melhor dizer a tensão que leva ao trágico que podemos sintetizar, como propôs Friedrich Wilhelm Nietzsche, no encontro de Dioniso e Apolo enquanto representantes da embriaguez e do sonho respectivamente, elementos inerentes à criação artística. Conforme argumenta Gatto (s.d.): “O trágico nasceu da religião. Da religião dionisíaca. Os gregos já anunciavam a tragédia do paraíso perdido que o Cristianismo sintetizou na ambição de Eva dos frutos da árvore da ciência. Dioniso já era o anseio ao retorno à situação paradisíaca, que implicava o contato direto com o uno primordial, como Nietzsche argumentou”.
O conto “Magia do Luar” retrata a história de Emílio, um rapaz de posses que migra da cidade grande para a “remota província de Cuiabá, aonde a civilização não se fizera chegar…” (p.85). Embora sentisse falta da agitação ele gostava da tranquilidade do local onde aproveitava o tempo vago em passeios a cavalo, pescarias e poucos bailes com os amigos. O restante do tempo abstraía-se com leituras, sem coragem para enfrentar os trabalhos e o estudo. Ao entardecer, debruçado à janela se lembrava das tardes que passava com a tia tendo como diversão observar os acendedores de lampião e aos poucos as ruas da cidade iam se iluminando e suscitando lembranças de sua infância. 
No conto “A Provinciana”, Lauro um jovem do interior, após terminar o curso de medicina vem para a capital e traz consigo a pureza e ingenuidade de quem vive o lirismo das cidades interioranas. Com o passar do tempo se sente contagiado e tudo o que acreditava acabou sendo corrompido pela agitação e costumes da cidade grande. Entregou-se à vida e desacreditou de muita coisa que lhe parecia sentimental. Vislumbrava a imagem feminina como se fosse apenas para satisfação pessoal não se deixando envolver em sentimentalismos. Após residir aproximadamente por cinco anos decide que chegou a hora de voltar para sua terra natal e rever amigos e parentes que ficaram para trás. Como iriam reagir? Como estariam todos? Quando chega a sua cidade encontra um cenário tão conhecido e ao mesmo tempo diferente. O frenesi da cidade grande fora substituído pelas pacatas noites da cidade do interior e esse sentimento de melancolia causava-lhe aborrecimento e tédio.
O trágico, em ambos os contos, está no choque de valores, suscitados mesmo pela cultura, que, aliás, constituem os núcleos conflitivos. Isto pode parecer estranho se pensarmos nos finais catastróficos das tragédias. Devemos, no entanto, pensar no âmago do problema e afinar nossa sensibilidade para as catástrofes do ser que no modernismo se faz de ordem psicológica.

Referências
BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Tradução Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
GATTO, Dante. Aspectos preliminares em torno do trágico. Tangará da Serra, s.n.t.
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Josiane Lopes da Silva Ferreira é mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da UNEMAT e pesquisadora do Grupo TRANCO: o trágico na contemporaneidade.