quarta-feira, 4 de abril de 2018

DEUS


Dante Gatto

A necessidade que temos de ratificar a existência de Deus está ligada à própria força do mito, comum a todas as culturas. O mito é a consolidação dos nossos valores enquanto seres gregários. O Cristianismo mitificou Cristo e criou o mito do Deus Único. Isto está no processo da decadência do Império Romano. A transformação do mito em religião é comum a todas as culturas. A religião tem uma força unificadora poderosa, não só em termos nacionais como foi uma das prerrogativas do povo judeu, mas também em termos de consolidação de valores morais que também se opunham aos romanos. Isto faz que todo livro épico, esteio de uma religião, coloque os mitos, ou os deuses no caso do paganismo, ao seu lado, ratificando a sua história. O caso da Bíblia é exemplar: o povo judeu, narrando sua saga, coloca ostensivamente Deus, armando todos os seus projetos, até os mais espúrios.
O que caracteriza essencialmente o fenômeno humano é a transcendência, não é? E Deus não é uma concepção transcendental metafísica? Ora, eis que provo a existência de Deus dentro do fenômeno humano. Deus existe porque existe em nós um anseio irreprimível de alcança-lo, mesmo enquanto mistério. Ora, mistério essencial, não é? Somos a imagem e semelhança de Deus porque o nosso processo de transcendência se realiza por meio da Criação. Criar é a essência da nossa motivação. Criar, aprender, superar, transcender.
Nem todo homem, penso que o meu leitor deve concordar comigo, precisa da religião enquanto código moral. Você mesmo, meu acidental leitor, pense no seu exemplo. Eu afirmo, sem medo de errar, que se você crescesse distante da religião mesmo assim teria sido uma pessoa excelente em todos os aspectos. A religião, no seu caso, só confirmou aquilo que foi erigido pela sua consciência, não é assim? Conheço agnósticos, e até alguns que se dizem ateus, que são seres humanos exemplares. 
A religião não deixa de ser importante em termos de controle social. Permita-me tamanha mesquinharia. A arraia miúda precisa de um código (aquilo que deve e o que não deve fazer), precisa da coação, mesmo a ridícula ideia do inferno e coisas do tipo. O que eu quero dizer é que há aqueles que ainda precisam pensar em Deus. Há outros que não precisam. Aliás, será que Deus quer que se pense nele? Eu penso que não, mesmo já pensando nesta nossa inevitável e ridícula necessidade de antropomorfização. Deus como um bom pai, suponho que seja assim, iria preferir que seus filhos alcançassem uma suposta verdade, porque o ouviram ou porque descobriram a verdade dentro de si? É claro que a verdade do mito não se cala. Deus, o bom pai, há de preferir que a verdade nasça do filho e não, necessariamente, a verdade do mito, mas a verdade que rejuvenesça o mito. A própria ideia de Deus foi uma coisa construída, não é verdade? Tudo que é construído um dia será desconstruído, mas restara a essência que se resume na nossa busca transcendental e que ainda chamaremos de Deus. Isto é, se não arranjarmos uma palavra mais adequada.
Resumindo e concluindo: Deus existe porque precisamos afirmar as nossas verdades humanas e sintetizá-la numa forma superior de apreensão, precisamos do mito. Acredito, ainda, que um dia teremos suficiente poder de compreensão para abarcar o fenômeno da nossa origem de maneira mais completa. Eis um resuminho da minha tese. Sei que haverá infinitas antíteses.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

OLHOS OPACOS


Cindy Silva Cossolin


               E é na arte de lendo, escrevendo e reescrevendo que alguns encontram a tão sonhada paz.
           Eu sinto muito para os que irão ler estes escritos e se compadecerão da nossa heroína, desprezo quem os lerá e não sentirem nada, e me enojo dos praticantes dos atos que abaixo os abalarão.
            Nossa heroína tem dez anos, brilhosos olhos de cor verde folha seca, possui o sorriso mais contagiante que alguém possa imaginar, porém algo terrível acontece com ela, cotidianamente, esvaindo o brilho dos seus olhos, opacando sua contagiante energia e ofuscando o seu sorriso. Mas vamos com calma, ela vai nos narrar o que acontece a sua maneira. Segue abaixo seu relato:
            Sou de uma família comum, com duas irmãs, moramos e estudamos em uma fazenda-escola, e eu gosto muito das atividades do local. Temos muito o que fazer e eu disponho de muita energia.
            Nesta fazenda-escola há vários funcionários, pois se exige muita mão de obra especializada. Meus pais também são funcionários daqui, portanto temos vários amigos em comum.
Certa vez, meus pais marcaram com um jovem casal que também trabalhavam no local um acampamento em um rio que ficava nas redondezas. Foi muito legal saber que iríamos acampar, e ainda com a tia Sônia da contabilidade e meu futuro professor de física, José Ricardo. Eu gostava muito deles.
            Partimos cedinho, cada família em seu carro e subimos rumo ao rio, cantando um sucesso da época, uma música da cantora Luka, aquela que diz "de mãos atadas, de pés descalços, com você meu mundo andava de pernas pro ar...". Tô nem aí é o título da música.
Quando chegamos a uma região onde havia muitas pedras-sabão, já sabia que o rio se aproximava. Montamos nossas barracas e eu já fui logo descendo uma pequena escadaria que de tão lisa dava muito medo, mas quando se encara a visão das corredeiras é a melhor sensação do mundo: o rio claro como a luz do dia; as corredeiras rápidas, como um jaguar das savanas africanas, e, por fim, as belas flores do cerrado sul-mato-grossense fechavam com chave-de-ouro o maravilhoso lugar.
            Banhávamos na parte onde as corredeiras eram mais fracas e a água mais rasa, pois o rio não deixava de serem perigoso. As pedras dificultavam um pouco, mas não atrapalhavam a diversão, pelo contrario, escorregávamos sentadas ou deitadas nas corredeiras. Nesse mesmo rio existia uma trilha, que dava até uma cachoeira lindíssima, mas também se podia usar a trilha para descer e chegar até o rasinho onde estávamos, fora uma tirolesa, onde os adultos e os mais corajosos se aventuravam a descer, em que, certa vez, o Tio João, dentista, caiu e quebrou o braço. Fiquei triste por ele.
            Tudo estava as mil maravilhas, até que meu pai me chamar para descer o rio com ele, de boia, daquelas feitas com garrafas pet. Nesses momentos meu coração parava de bater, porque eu já sabia o que aconteceria nessa descida ao inferno. Desfaleci. Minha alegria toda se transformou em dor, mas como negar o mandamento do pai? Baixei minha cabeça, peguei sua mão e fui como quem vai para a forca, cumprir com minhas obrigações de uma boa filha e satisfazer os desejos sexuais do pai degenerado. Chegamos ao local, onde era possível descer com a bóia. Ele entrou primeiro, depois me colocou a sua frente, de costas para ele, e fomos descendo rio abaixo. Eu, como sempre, sem dizer uma palavra. Foi até melhor ficar de costas para aquele infame. No percurso, ele abria seu short e despia a parte de baixo do meu biquíni, abaixando-o ate meus joelhinhos. Dava-me horror todo aquele ritual, ficava apavorada, meu coração apertado pensava: "O que será dessa vez?" Suas mãos em frenesi tocavam todo meu corpo, eu queria gritar, chorar, implorar, "não, por favor não faça mais isso", mas me calava. Ele passava os dedos  na minha vagina e esfregava dentro d'agua seu pênis da minha vagina até meu anus, e gemia ao meu ouvido a cada deslizada. Eu só conseguia pensar quando aquela tortura iria acabar e por que ele fazia aquilo comigo. Por que eu? O que fiz de errado para ele fazer isso comigo? E sempre calada: o medo era grande, o asco também e a vergonha maior ainda. Ele fazia isso o percurso inteiro, até as corredeiras se aproximarem das pessoas que lá estavam, quando me mandava subir o biquíni. Quando chegávamos a parte mais rasa do rio, ninguém desconfiava de nada por sermos pai e filha. Estranhamente, sabia que se abrisse a boca iria apanhar. Até me arrisquei uma vez. Apanhei.

            Como dizia a letra da musica, eu realmente estava "de mãos atadas...", embora nunca tenha conseguido ficar “nem aí”.     

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O NÃO EXISTIR

Margarida Franco

Ah! A pós-modernidade, com suas tecnologias trouxe-nos coisas tão maravilhosas! Quem nos dias atuais conseguiria viver sem ter acesso á internet, ou aos aplicativos que são capazes de nos trazer o amor de nossa vida, a comida do almoço, a corona para o jantar, o remédio para a azia que podemos ter depois de jantar com o amor de nossa vida?
A maioria das pessoas vive conectada em suas vidas virtuais que, por muito, são bem mais interessantes que as reais, pois na realidade permanecem curvados com os olhos fixos a uma tela. A popularidade, a importância de alguém é medida pela quantidade de likes e views que é possível conseguir em suas publicações que, alias, são vazias e sem sentido, o que combina à maioria das relações.
Joana conheceu Carlos em um desses aplicativos de pseudos relacionamentos. Joana era uma jovem negra, cabelos cacheados que pareciam serem feitos a mão, mas desde a sua infância fora instruída a sempre mantê-los presos para não chamarem a atenção, pois a combinação mulher e negritude, e ter a audácia de nascer em um planeta onde um ser humano diz ser “melhor” que outro, não a favorecia. Não era aconselhável brincar na rua com a vizinhança, pois sempre havia olhos algozes a espreita daquelas curvas que ainda eram inexistentes. E aquelas piadinhas que sua avó ouvia a seu respeito:
– Que criança linda, quando crescer vai ser minha nora.
– Prendam suas cabras que meus bodes estão soltos!
A velha senhora não sabia como proteger a pequena Joana, então tentava mantê-la fora do alcance dos radares.
Pois bem, ela cresceu e conheceu a tecnologia, o lado bom e o ruim, pois, quando postava uma fotografia, em meio a alguns elogios surgiam também comentários recheados de um ódio gratuito de pessoas que, pelo simples fato de possuírem a cor da pele diferente sentiam-se no direito de ofendê-la, ou julgá-la. Julgavam-lhe as vestes: por mais simples e comportadas que poderiam ser, alguém sempre era capaz de identificar alguma malícia ou provocação para o sexo oposto. Ela era sempre orientada a não se manifestar, não chamar a atenção. O ideal era não ser notada, não existir. Mas voltemos a Carlos.
Carlos a elogiara: seu cabelo, seus dotes femininos, enfim Carlos se apresentou como sendo o amor da vida de Joana. Marcaram um encontro. Joana chamou um carro pelo aplicativo, assim como Carlos também o fez.
Eles não notaram que, pelo caminho, passaram por uma criança plantando uma árvore e se sujando; uma mãe enlouquecida, porque se esqueceu de pagar o boleto da escola particular da criança que plantava a pequena árvore. Eles não viram a mãe dar um aparelho de jogos eletrônicos ao menino para que ele não se sujasse e ela não tivesse problemas com o esposo e com a escola.
Joana sempre pontual a seus compromissos chegou primeiro. Quando Carlos chegou cumprimentaram-se cordialmente, pediram comida por um app qualquer, conversaram sobre quase tudo em cinco minutos e, logo depois, voltaram aos seus aparelhos telefônicos para registrarem cada segundo do encontro. Na partida, Carlos ofereceu carona à Joana que aceitou, mas ele mudou a rota e Joana nem percebeu, porque estava distraída escolhendo os famosos filtros para suas fotografias. Carlos pediu ao motorista para ir mais rápido, chegaram a sua casa, em um bairro dito “nobre” e subiram até a cobertura. Joana ficou entusiasmada, pois nunca virá lugar mais lindo do que aquele apartamento. Tudo era tão claro, tão brilhante. Carlos ofereceu uma bebida e já foi beijando a moça. Ela se assustou um pouco e pediu para que ele parasse.
- Tola!  Disse e continuou.
- Se você não quisesse não teria subido até aqui, eu sei que você quer. Pare de se fazer de difícil! Vocês são todas iguais: ficam se oferecendo e na hora de mostrar serviço se fazem de santinhas?
Joana não pode lutar mais e Carlos a teve como quis, da forma que quis e quantas vezes teve vontade.
Joana, como já não existia, apenas tornou-se mais um número, entre tantas estatísticas que vemos publicadas por aí. Tal ato, graças a Carlos que filmou tudo, pode ser visto na web com um título qualquer que não me lembro. Milhares de pessoas assistiram ao trágico espetáculo e, em sua maioria, culparam Joana.
- O que ela queria? Estar na rua sozinha há essas horas!
- Ele mereceu. Olhem a roupa dela!
- Ela tá gostando!
- Bem feito, fica em aplicativos procurando homem, isso que dá.

Joana foi apenas mais uma na lista de Carlos. Joana que não era vista, não existia, nunca fora ouvida sobre o que aconteceu, pois ao ver o julgamento público do seu sofrimento, não conseguiu superar dor e vergonha e deixou de existir para todos inclusive para a vida.

domingo, 17 de dezembro de 2017

SOBRE OS ROMANCES DE MATO GROSSO

Dante Gatto

            O romance já não pode ser visto como tragédia (relação do homem com seu destino) ou épica (relação do homem com sua comunidade), mas síntese dialética de ambas. Em que se constitui o mundo moderno em relação ao mundo épico? Cisão: divórcio entre a essência e a vida. Não é mais natural ser herói. A arte não é mais cópia, porque todos os modelos se foram. Enquanto a épica é a aventura da exterioridade, o romance é a aventura da interioridade: "estória da alma que se encontra a si mesma" (LUKÁCS, 2000, p.89), projeto existencial, de escolha individual, que tenta realizar o herói indivíduo. Para Lukács (2000), na épica, a condição de herói é natural, no romance, a luta é o que conta e não o resultado final. A hierarquia entre essência e existência, que é inerente à tragédia e à épica, no romance se efetiva enquanto forma.
Significativo é o caso de Uma Interpretação da Literatura Brasileira, de Vianna Moog, publicado primeiramente em 1943. Trata-se de um opúsculo resultante de conferência proferida no ano anterior, na Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro. O autor defende a tese de que a literatura brasileira, diferentemente das grandes literaturas europeias - francesa, alemã, espanhola, inglesa, portuguesa -, todas homogeneizadas por um princípio unificador, se caracterizaria por "estonteante diversidade" (MOOG, 2006, p.21). Chega então à ideia de que, não sendo um continente, somos antes um "arquipélago cultural" (MOOG, 2006, p.22) composto por sete ilhas - Amazônia, Nordeste, Bahia, Minas, São Paulo, Rio Grande do Sul e Metrópole (isto é, a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal) - que explicariam nossos fenômenos sociais, históricos, econômicos, políticos e literários. Nenhuma menção ao Mato Grosso. Cada "ilha" teria sua vocação específica a refletir-se na literatura que lhe corresponde: a amazônica seria marcada pelo elemento telúrico; a nordestina pela preocupação social, a baiana, pela tendência à erudição; a mineira pelo pendor humanístico; a paulista pelo ímpeto bandeirante e proselitista; a gaúcha, pelo contraponto entre regionalismo e universalismo; e a carioca pela propensão para a pintura de costumes e por certo desencanto cético e irônico. Conforme Souza (2007, p.138-9), a tese não deixa de ter encanto literário e poder persuasivo, mas é conceitualmente frágil, baseando-se mais em síntese imaginosas do que em análises demonstráveis. Bem, fica de curioso a questão: seria possível discernir uma vocação específica a refletir-se na literatura de Mato Grosso?
Examinamos os romances mais significativos da literatura de Mato Grosso, da primeira metade do século XX (Mirko de Francisco Bianco Filho, 1927; Piedade de José de Mesquita, 1937; Era um Poaieiro de Alfredo Merien, 1944 e Luz e Sombras, 1917 de Feliciano Galdino de Barros) e concluímos que a estética da romanesca mato-grossense efetiva-se numa tensão entre a dialética da realidade e o romantismo normatizado (nacionalismo e regionalismo). As elites intelectuais e artísticas de Mato Grosso, plenamente articuladas, olhavam com temor os avanços do modernismo e preferiram um retorno ao equilibro romântico, em termos de heroísmo, estabelecendo uma hierarquia de preocupações: em primeiro lugar o cristianismo/catolicismo; em seguida, o regionalismo, valorização da cor locar, em detrimento ao sudeste, e por último, a estética. Valores distorcidos, não é?
Temos um quadro complexo que foge a reduções esquemáticas, mas pensamos poder sintetizar algumas reincidências estéticas: narrador fortemente intruso, com função ideológica; maniqueísmo e personagens fortemente estereotipadas; visão patriarcal do mundo e nunca finais em aberto, mas desfechos trágicos. Evidente que não se tratam de romances românticos, porque só o modernismo poderia articular tal dialética. Piedade, de Mesquita, talvez seja o exemplo mais claro do que estou argumentando: o protagonista Paulo é um romântico retardatário (estrutura psicológica complexa), mas o romance se estende às mazelas pós-casamento e o desfecho se dá com a morte de Piedade, antes que ela resolva entornar o caldo de uma realidade ficcional bastante anacrônica.

Referência
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-folosófico sobre as formas da grande épica. Trad. De Jose Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades: 34, 2000.
MOOG, Viana. Uma interpretação da literatura brasileira. Porto Alegre: Instituto nacional do livro, 2006.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O PERCURSO OBSCURO NA BR 262

Cindy Silva Cossolin

Hum... deixe-me ver se recordo do que aconteceu naquele dia, pois houve vários outros dias em que a mesma coisa aconteceu, não da mesma maneira, logico, criatividade e sigilo eram fundamentais e isso perdurou por dez anos comigo, se não me falha a memória. Esse é um dos momentos que passei com meu pai, não sei se consigo narrar outros no futuro, pois para mim foi praticamente um parto escrever tudo isso hoje. Nem eu mesma sei, o porquê escrevi. Acho que só queria desabafar. Pensando bem, não falei nada a respeito de minha família, não que isso seja fundamental para o decorrer da história, mas é interessante saber para que vocês tenham ideia da dinâmica que isso causa nos fatos.  Somos em cinco: meu pai João, minha mãe, minha irmã mais velha, eu e outra mais nova.
Meu pai tinha uma loja, Estrela Informática, no qual tinha o padrinho de minha irmã mais nova como sócio, o tio Felisbim. Passávamos muitos fins de semana na chácara do tio Felisbim. Lembro-me que lá era como um pântano, tinha muitas arvores, mato alto espesso e não poderia faltar em qualquer porta ou janela uma tela de proteção, como se fosse uma segunda porta, pois os mosquitos eram abundantes ali, fora presença de aranhas caranguejeiras, cobras e outros animais, típicos do pantanal sul-mato-grossense.
Tio Felisbim era para mim, na tenra idade que estava, um homem alto, falava alto e ria muito, tinha cabelos aloirados e pela idade alguns fios esbranquiçados pelo passar dos anos imagino. Os olhos muito claros, não me lembro se eram azuis ou verdes, seu corpo ficava vermelho quando muito tempo no sol. Diferente de meu pai, o queixo do tio era largo e de meu pai, bem anguloso, ele também ficava vermelho se muito tempo ao sol, tinha os lábios finos o oposto de Felisbim que eram grossos, meu pai mais magro, o tio mais robusto.
A chácara tinha uma casa mergulhada em um matagal e no seu interior, na sala de estar existia a boca de um jacaré morto pendurado, de modo que podíamos ver com detalhes seus enormes dentes afiados. Foi lá que pela primeira vez assisti ao filme Jurassic Park e a boca do jacaré lá na parede me fazia lembrar os dinossauros do filme, isso é muito fresco em minha memória, o clima, os animais, os churrascos envolvendo as famílias.
Tio Felisbim e meu pai revezavam as tarefas na recém-inaugurada empresa, pois ele morava na cidade e nós, cerca quarenta quilômetros de distância de lá. Chegou esse dia qualquer de meu pai ir à noite para a empresa, dar continuidade nos trabalhos que ali prestavam. Era um dia comum, acho que fui para creche, ou não me recordo de já ser fim de semana, ele resolveu me levar junto, então eu tomei banho e me arrumei para acompanhar meu pai até a cidade. Usei uma blusinha, um casaquinho e uma sainha, dei tchau para minha mãe que ficou com minhas irmãs e como qualquer outra criança, pedi para ir no banco da frente, meus pés mal tocavam o assoalho do carro, mas me sentia importante lá.
Durante o percurso, estávamos escutando música, não lembro qual, mas me sentia apreensiva. Passado a estrada de chão que dava acesso a BR 262, meu pai foi se transformando, ficando mais sério, porem sua mão vinha de encontro ao meu corpinho, ele com os olhos na estrada me desarrumava, levantava a minha blusinha, colocava a mão entre as minhas perninhas e me pedia para abri-las bem. Não gostei daquilo e fechei as perninhas com mais força, mas ele não desistia, e falava: abre as pernas filha para o papai, abre, é o papai aqui. Mas eu não queria, foi quando ele me olhou, aqueles olhos azuis claros que hoje os comparo com o olhar de um nazista para um judeu. Como de um monstro para sua presa, cheio de ódio, até suas sobrancelhas se uniam em uma só. Naquele momento não parecia ser meu pai e sim meu algoz.
Abri as pernas. Sua expressão já mudara nesse momento, se mostrou mais solto, porem agitado. Esfregava sua mão entre minha calcinha de bichinhos e minha genitália e com os dedos, alargava o elástico entre minhas coxas. Não contente mandava abrir ainda mais as pernas, até o ponto de elas doerem com o esforço de abertura, meus pés não tocavam mais o assoalho. Continuou passando os dedos na minha pequena vagina, e eu olhava para a porta do carro fechada, o tempo todo.
Me mandou tirar a calcinha de bichinhos, tirei, então me abriu as pernas outra vez com uma das mãos, passando impacientemente os dedos na minha pequena vagina, ainda sem sinal de pelos e apertando, o que hoje sei ser minha uretra, como se fosse uma pinça, isso doía muito, sentia tanta dor que fechava meus olhinhos na esperança de ele acabar logo de me violentar. Mas não, não ainda. Com a outra mão esfregava e apertava freneticamente sua genitália ainda vestida, porém não demorou muito até que ele afrouxasse seu cinto, abrisse o zíper de sua calça e a abaixava um pouco, apenas para expor-me seu pênis já ereto.
Não satisfeito, pegou a minha mãozinha, eu estava tão nervosa que meus músculos ficaram todos enrijecidos e meus dedinho fechados em punho. Meu pai me mandou abrir a mão esquerda e a colocou na base de seu pênis, sua mão grande e peluda sobre a minha pequena, foi fazendo movimentos que hoje entendo por masturbação, mas naquela época eu não sabia o que era aquilo, e até hoje sinto muito asco ao recordar desse momento. Ficávamos assim por alguns instantes que para mim parecia uma eternidade, eu continuava olhando para a porta do carro fechada e ele bulindo meu corpo e concomitantemente se masturbando com minha mão entre seu pênis nojento e sua mão monstruosa, ele ainda tinha a desfaçatez de me perguntar se eu estava gostando daquilo.
Eu nem sabia o que estava acontecendo, o que era aquilo, mas de alguma forma entendi que era errado, e não, não estava gostando nada daquilo, mas um medo inexplicável tomava conta da minha consciência infantil, confirmava, apenas balançando a cabeça de cima pra baixo, sem olhar para os seus olhos azuis aterrorizantes. Quando tudo acabava, me mandava pôr a calcinha de volta, já estávamos perto de chegar a loja, arrumava minha roupinha e sua expressão já era outra, mais tranquila. Ficávamos nos computadores da Estrela Informática, eu desenhando e ele trabalhando até a hora de voltarmos para casa. Mais um dia normal na minha infância. Acho que só queria desabafar.

O CARÁTER SUBVERSIVO DA POESIA

Dante Gatto
           
Quando escrevi anteriormente do caráter essencialmente subversivo da arte, indômita e iconoclasta por vezes, senti pairar no ar, no silêncio dos meus habituais interlocutores, um desconforto de incompreensão. Inclui-se, nesta inferência, estavam até os mais próximos às reflexões teóricas e produtores de textos poéticos. Nem pensei naqueles que querem a arte utilitária, meramente a serviço de alguma ideologia econômica, política ou religiosa, por conta do ridículo de suas teses. Devemos convir, no entanto, que há sutilezas no caráter subversivo da poesia, uma vez que a subversão não se apresenta sempre em seu estado acabado como previu Ferreira Gullar: “A poesia / quando chega / não respeita nada”. Mas, devemos convir, que a poesia vem chegando, vem chegando até a paroxismo de não respeitar nada e, como sabemos, não há fronteira entre preliminares e acabamento, não é? Argumentei algumas vezes da tensão que se estabelece entre a intensão da mensagem e a irresolução inevitável, suscitando um incômodo de alguma coisa mal resolvida, criando até um léxico particular. Ora, a subversão está subjacente. A dialética da pós-modernidade está na impossibilidade da síntese em detrimento ao remoer das contradições e agoniza-se num doloroso impasse que se faz estético também. O que estou tentando argumentar é que o envolver ou suscitar a contradição é, também, subversão.
            Sempre subversiva a poesia, ratifico agora e retifico, também, acrescentando um ponto fundamental, não apreciado adequadamente em outros momentos das minhas reflexões, apesar de tão óbvio. Ora, o próprio sentimento, essência de toda lírica, é subversivo. O poema não deixa de ser a tentativa de expressar com palavras os impulsos do sentimento. Sentir, todos vivenciamos isto, deve obedecer aos parâmetros adequados a nossa sociedade, voltada à produção e ao consumo. Consumir é preciso para produzir mais e alimentar a máquina que não para, mas se quer humana. Vivemos nessa roda viva, por vezes, ficando “[...] cara a cara / com o que não se quer ver”, como canta Chico Buarque. O tempo de produzir tem prerrogativa ao tempo de sentir. Sabemos disto e aprendemos, por vezes, de forma cruel: “engole tuas mágoas, meu irmão e parte para ganhar teu pão”, me disse alguém, certa ocasião, em que quase perdi o emprego, porque a serenata frustrada, temperada da cachaça do despeito, me engoliu o dia de trabalho. Bem, a obrigação do pão nosso de cada dia está ligada ao mito trágico do paraíso perdido, não é? A coisa vem de longe. Mas tenho, ainda, exemplo melhor de fato ocorrido recentemente. Fui banca, juntamente com outros professores e alguns artistas, de um concurso de poesia na Escola Estadual Vereador Bento Muniz, em Tangará da Serra, em que se deveria avaliar, além do poema, postura e declamação do poeta. Somente alunos dos primeiros anos participaram do evento, crianças e alguns poucos pré-adolescentes. Inclusive, a coordenadora do evento, apesar do entusiasmo, estranhou o fenômeno da ausência dos adolescentes. Tal ausência corrobora a minha tese. Mencionei, em outras ocasiões, o fato das agendas infantis estarem sempre carregadas de poemas e isto vai desaparecendo com a idade. Talvez, seria exagero dizer que é proibido sentir, mas a realidade reflete isto.
            Poderiam argumentar, acompanhando minha reflexão, que o tema do evento na Escola Bento Muniz (“Escola e família”), não se fazia adequado à subversão e, por conta disso, houve o afastamento dos adolescentes. Não se trata disso, em minha opinião, mas do utilitarismo que emprestamos a todas as nossas atividades. Afinal, para que serve a poesia, o poema? A criança, ainda infensa ao aproveitamento das coisas pelo capitalismo, embarca na escrita em versos, articulando rimas etc., que acordam emoções e os pais ali, acompanhando, sorrindo e até chorando ao ver e ouvir o filho, ou a filha, declamar o próprio poema. O adolescente, sintonizado em preocupações práticas, utilitárias, como emprego e vestibular, optou por não participar do que, talvez, tenha interpretado como um anseio infantil (a poesia) ou uma ridícula esperança de criança, pensando já como os próprios pais que os querem ver bem sucedidos na vida.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O COXINHA (O MODELO NACIONAL DO POBRE DE DIREITA) E O NAZISTA: UMA EXPLICAÇÃO PSICANALÍTICA PARA O FENÔMENO

Dante Gatto

        Incrível que Hitler tenha conseguido mobilizar o povo alemão e leva-lo à barbárie e ao holocausto, não é? Tristemente, trilhamos caminho similar à Alemanha nazista e, penso eu, podemos tentar entender a complexa estrutura psicológica do coxinha numa aproximação ao sinistro nazista e, aliás, tal comparação é corroborada pela figura quase inverossímil e não menos torpe de um fascista tupiniquim que eu me recuso a repetir o nome, mas todos conhecemos pelo descalabros das suas declarações e de conseguir, também, arrastar multidões à misoginia, homofobia e racismo em pleno século XXI. Penso, inclusive, que Chaplin teria dificuldade em ridicularizar nosso produto fascista como fez com o Führer, porque ele consegue ser ridículo pela própria natureza.
O sentimento nazista se aproxima ao do coxinha não só pela parecença de seus líderes e pelo fascismo subjacente em ambos os contextos. Maria Rita Kehl (1987) tratou o fenômeno nazista ao nível da repressão, explicando que se trata de repressão malsucedida, uma vez que, como explica, a repressão bem sucedida não deixa traços. A malsucedida, no entanto, deixa os sintomas: tentativas canhestras da psique de dar expressão ao que não pode ser dito, de trazer à luz o que está mantido à força, na obscuridade. O coxinha, cujo desempenho é inverossímil, parecendo uma criação mal-acabada de uma ficção científica, não quer ser coxinha, mas é a saída que lhe proporciona algum alívio.
Na repressão malsucedida, a energia do desejo não fica reprimida, mas a ideia que está associada ao desejo não é claramente identificada. A energia fica livre e dissociada do seu conteúdo, liga-se a outros conteúdos e desse modo gera os sintomas, no caso, o absurdo desempenho coxinha. Isto equivale dizer que o neurótico coxinha anseia e não sabe pelo quê, mas os mecanismos de defesa do ego estabeleceram uma coerência entre a personalidade e seus sintomas. Coerência, aliás, que só o coxinha entende. Ele pensa que sabe o que quer, porque associa seu desejo à expressão da realidade que pode entender. Vejam que o coxinha só vai exalar sandices, limitado sempre a superfície do problema.
Completa Kehl (1987): “a repressão é um mecanismo insuficiente para dar conta do excesso de energia que não encontra meios de descarga. A repressão dissocia, aliena, faz da pessoa uma cega para os seus desejos, ignorante sobre o que é bom para ela”. Palavras bem adequadas ao pobre de direita. Ora, trata-se de circunstâncias propícias para se tornar presa fácil de lideres totalitários, como estamos assistindo, que, novamente Kehl (1987), “prometem alívio para as angústias de prazer que acompanham todas as tentativas de retorno do reprimido”. O coxinha reconhecerá tal liderança, como o nazista também o fez. A repressão, portanto, torna-se condição da obediência: “quem não sabe o que quer, quer aquilo que lhe dizem o que ele deve querer.” Não é outra a razão que explica a adesão do “pobre povo alemão” ao nazismo e agora, quase um século depois, do pobre povo brasileiro a quem o valha.
Há de se guardar algumas diferenças que, talvez, faça parte da idiossincrasia brasileira, combinada à dialética da realidade: o nazista era modelar, mas o coxinha é multifacetado; o nazista era (ou ainda é) chauvinista, representante de um conceito da raça ariana, mas aqui (Brasil) e agora a expressão reacionária por vezes é compactuada pelas próprias vítimas dela e temos o coxinha pobre, bem como, por vezes, mulheres, homossexuais e negros louvando a chibata que lhes sangra o lombo e respondendo com violência, afinal, com lembra ainda Kehl (1987): “a energia desprovida de significados torna-se matéria bruta das paixões”.

Referência


KEHL, M. R. A psicanálise e o domínio das paixões. In: CARDOSO, S. et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 469-496.