segunda-feira, 16 de outubro de 2017

“CONHECE-TE A TI MESMO”

O homem nasce, cresce, morre. Para muitos cientistas esse processo é conhecido como “o ciclo natural da vida”. Nesse ensaio não queremos negar esse termo, porém, produzir mais subsídios ao estudo do Trágico.
Essa é a natureza trágica da vida: totalmente trágica. Entretanto, o que é a vida? A vida é vista como algo concreto. Ou seja, real em si mesma, porque diz respeito a cada ser humano de forma bastante singular. Todavia, o que seria a vida para um indivíduo em pleno leito de morte? Ou até mesmo, para um indivíduo condenado à morte? 
Para o indivíduo que está prestes a morrer, a vida pode ser considerada o último suspiro que lhe resta, um momento único, no qual o que mais vale é aproveitar até o último sopro de vida. Assim sendo, a vida é algo precioso, quando escrevemos, matutamos, experimentamos, vivemos, ora, a vida em si é valiosa. Logo, ao recordarmos de quando éramos crianças, percebermos o quanto tínhamos a alegria de viver, contudo, porque perdemos essa afoiteza, típico da meninice? Podemos dizer que o tempo, assim como a água que segue o curso do rio, acaba demudando para não regressar.
A alegria de viver é o princípio essencial para encontrar o sentido da própria existência. Arthur Schopenhauer (1788-1860) assinala que “nascimento e morte pertencem à vida e equilibram-se mutuamente como condições recíprocas, ou melhor, como polos do fenômeno total”. Nesse sentido, o pensamento é quase importante contra a poderosa voz da natureza trágica da vida, e certifica o filósofo: “no homem, portanto, como no animal que não pensa, reina permanentemente esta segurança, oriunda da consciência profunda de ser ele próprio a natureza e o mundo”
Ao tomar esta perspectiva de pensamento, nos deparamos com a reflexão trágica em que a sociedade contemporânea se encontra, em que vivemos num mundo globalizado, no qual o homem ganha informações a todos os momentos, influência dos meios de comunicação, da economia etc. Viver é um espetáculo, no entanto, existem dificuldades, tais como, o desemprego (que atingem até pessoas capacitadas para o mercado de trabalho), a discriminação (pela cor, pelo sexo, pela política, pela religião, pela orientação sexual e até mesmo pela idade), a doença (a fatalidade da humanidade, por exemplo, a Aids, o Câncer),  que podem levar à exclusão social.
A consciência do trágico é humana. Assim, o homem é ele e suas circunstâncias porque está enraizado numa peleja que se chama viver, pois para articular o processo precisa buscar/lutar, como um gladiador no palco de duelo, com todas as suas forças. Mesmo assim, o seu destino tende a ser trágico, principalmente, porque levará à morte. 

Referências


SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação: Livro IV. Trad. Heraldo Barbuy. Disponível em: <http://coral.ufsm.br/gpforma/1senafe/biblioteca/schopenhauer_o_mundo_como_vontade_pt4.pdf>. Acessado em 09 de Dezembro de 2014, ás 00h57min.

domingo, 8 de outubro de 2017

O TRÁGICO ENTRE-LUGAR NOS CONTOS DE JOSÉ DE MESQUITA

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tangará. Segue referência abaixo: 
SILVA, Josiane Lopes da. Leitura. Jornal Tangará (ISSN 2527.127X), Tangará da Serra, p. 06, 11 out. 2017.

Josiane Lopes da Silva Ferreira

Há milhares de anos povos transitam de um lado para outro à procura de melhores condições de vida, numa constante inquietação. A primeira “diáspora” (HALL, 2008) que temos nítida em nossa memória encontra-se escrita no livro Êxodo, da Bíblia Sagrada, em que relata a fuga do povo hebreu do Egito para a Terra Prometida.
Edward W. Said foi quem primeiramente abordou o conceito de entre-lugar causado pela hibridação das culturas que gera o sentimento do não pertencimento: “Desde minhas mais remotas lembranças, sentia que pertencia aos dois mundos, sem ser totalmente de um ou de outro”. (SAID, 2011, p. 29).
O autor indiano Hommi Bhabha em seu livro O Local da Cultura (1998) questiona esse sentimento e afirma: "De que modo se formam os sujeitos nos ‘entre-lugares’, nos excedentes das somas das ‘partes’ da diferença?” (BHABHA, 1998, p. 20).
 Bhabha (1998) ressalta que a tradição transmitida de geração a geração é uma forma de identificação, mas que muitas vezes fica comprometida quando esta se perde no tempo e ao reviver o passado acontecem mudanças, o indivíduo entra em conflito e é dessa forma que o conceito de entre-lugar afeta as pessoas e provoca essa “crise existencial” constituindo um elemento da tragicidade da vida.
Partindo da perspectiva do trágico, conforme Nietzsche, para o conceito do entre-lugar vamos observar os contos “A Magia do Luar” e “A Provinciana” do livro A Cavalhada (1928) de José de Mesquita e de que maneira esse conceito afeta as pessoas em sua normalidade, por não encontrarem um “porto seguro” das "grandes certezas", gerando uma crise existencial.
            Implícito à tragédia está a dinâmica do trágico, ou seria melhor dizer a tensão que leva ao trágico que podemos sintetizar, como propôs Friedrich Wilhelm Nietzsche, no encontro de Dioniso e Apolo enquanto representantes da embriaguez e do sonho respectivamente, elementos inerentes à criação artística. Conforme argumenta Gatto (s.d.): “O trágico nasceu da religião. Da religião dionisíaca. Os gregos já anunciavam a tragédia do paraíso perdido que o Cristianismo sintetizou na ambição de Eva dos frutos da árvore da ciência. Dioniso já era o anseio ao retorno à situação paradisíaca, que implicava o contato direto com o uno primordial, como Nietzsche argumentou”.
O conto “Magia do Luar” retrata a história de Emílio, um rapaz de posses que migra da cidade grande para a “remota província de Cuiabá, aonde a civilização não se fizera chegar…” (p.85). Embora sentisse falta da agitação ele gostava da tranquilidade do local onde aproveitava o tempo vago em passeios a cavalo, pescarias e poucos bailes com os amigos. O restante do tempo abstraía-se com leituras, sem coragem para enfrentar os trabalhos e o estudo. Ao entardecer, debruçado à janela se lembrava das tardes que passava com a tia tendo como diversão observar os acendedores de lampião e aos poucos as ruas da cidade iam se iluminando e suscitando lembranças de sua infância. 
No conto “A Provinciana”, Lauro um jovem do interior, após terminar o curso de medicina vem para a capital e traz consigo a pureza e ingenuidade de quem vive o lirismo das cidades interioranas. Com o passar do tempo se sente contagiado e tudo o que acreditava acabou sendo corrompido pela agitação e costumes da cidade grande. Entregou-se à vida e desacreditou de muita coisa que lhe parecia sentimental. Vislumbrava a imagem feminina como se fosse apenas para satisfação pessoal não se deixando envolver em sentimentalismos. Após residir aproximadamente por cinco anos decide que chegou a hora de voltar para sua terra natal e rever amigos e parentes que ficaram para trás. Como iriam reagir? Como estariam todos? Quando chega a sua cidade encontra um cenário tão conhecido e ao mesmo tempo diferente. O frenesi da cidade grande fora substituído pelas pacatas noites da cidade do interior e esse sentimento de melancolia causava-lhe aborrecimento e tédio.
O trágico, em ambos os contos, está no choque de valores, suscitados mesmo pela cultura, que, aliás, constituem os núcleos conflitivos. Isto pode parecer estranho se pensarmos nos finais catastróficos das tragédias. Devemos, no entanto, pensar no âmago do problema e afinar nossa sensibilidade para as catástrofes do ser que no modernismo se faz de ordem psicológica.

Referências
BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Tradução Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
GATTO, Dante. Aspectos preliminares em torno do trágico. Tangará da Serra, s.n.t.
MESQUITA, José de. A Cavalhada. Contos mato-grossenses. Instituto Histórico e da Academia Mato-grossense de Letras. CUIABÁ Escolas Profissionais Salesianas MCMXXVII.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


Josiane Lopes da Silva Ferreira é mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da UNEMAT e pesquisadora do Grupo TRANCO: o trágico na contemporaneidade.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

LITERATURA: CRIAÇÃO E ANÁLISE

Dante Gatto

A análise literária prescinde da consciência da criação. Vamos refletir neste sentido.
Lukács (2009, p.39), diante do problema da filosofia histórica das formas argumenta que na época pós-helênica perdeu-se a periodicidade filosófica, “[...] os gêneros se cruzam num emaranhado inextrincável”. O objetivo não é mais claro. Mas “a imanência do sentido à vida [...] por maiores que sejam as comoções, pode perder o brilho, mais jamais ser totalmente dissipada. (LUKÁCS, 2009, p.39).
            Só a grande épica, defende Lukács (2009, p.44), pode dar forma à totalidade extensiva da vida. O que o drama pode fazer é dar forma à totalidade intensiva da essencialidade. No “aprisionamento formal”, tendo a existência perdido sua “totalidade espontaneamente integrada e presente aos sentidos”, o drama encontrou um mundo problemático, mas “capaz de tudo conter e fechado em si mesmo”.
O sujeito da épica, na grande épica, continua Lukács (2009, p.48), homem empírico da vida, tem sua presunção criadora e subjulgadora, mas transforma-se em homem comum da existência cotidiana, de modo tão inesperadamente óbvio, em humildade, em contemplação, em admiração muda perante o sentido de clara fulgência que se tornou visível a ele. Nas formas épicas menores, o sujeito enfrenta seu objeto de maneira mais soberana e autosuficiente. O narrador pode até observar “com o gesto frio e altivo do cronista” as manobras, absurdas para eles, do destino dos homens, “revelador de abismos e prazeroso para nós”; ainda que ele eleve à única realidade um pequeno recanto do mundo, ordenado, circundado de desertos caóticos e ilimitados da vida e cristalize esta experiência viva.

A completude dessas formas épicas, portanto, é subjetiva: um fragmento de vida é transposto pelo escritor num contexto que o põe em relevo, o salienta e o destaca da totalidade da vida; e a seleção e a delimitação trazem estampado, na própria obra, o selo de sua origem na vontade e no conhecimento do sujeito: elas são, em maior ou menor medida, de natureza lírica. (LUKÁCS, 2009, p.48-49).

Mircea Eliade (1992, p.28) argumenta que toda criação humana é uma réplica da cosmogonia. “A Criação do Mundo torna-se o arquétipo de todo gesto criador humano, seja qual for seu plano de referência”.
O romance, enquanto epopeia burguesa moderna, supõe, como o poema épico, uma visão total do mundo e da vida. Esta visão da totalidade na arte implica substituir à totalidade extensiva do real, a totalidade intensiva da essencialidade na coerência estética da obra de arte. Iracema não é simplesmente um anagrama de América, bem como Clara dos Anjos não é somente uma jovem negra vitimada pelo destino em um mundo reacionário e preconceituoso, mas ela é a representação artística, como caráter épico, de todas as mulheres negras.
Exemplar a consciência artística de Mário de Andrade bem como seu trabalho criador, na medida em que configurou Carlos, de Amar, verbo intransitivo como “constância cultural brasileira constatada”. (LOPEZ, 1999, p.18). Ora, Carlos se configurava o país, a nação, a pátria.
Devemos, pois, estabelecer uma espécie de pacto analítico orientador do exame aos nossos personagens e as situações narrativas, e isto implica uma adequada orientação metodológica.

REFERÊNCIAS

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico. 2. ed. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades, 2009.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
LOPEZ, T. P. A. Uma difícil conjugação. In: ANDRADE, M. Amar, verbo intransitivo, Idílio. 16. ed. Belo Horizonte: Villa Rica, 1999. p.9-44. 

sábado, 1 de outubro de 2016

CONCERTEZA ALGUMA CERTEZA

Luana Franavia de Souza Pinto 

O que significa aquele mal-estar que nos causa certos termos assumido por certo grupo de falantes, atualmente? Refiro-me, de uma forma muito geral: por um lado aos que não são sensíveis aos padrões adotados pela academia e, por outro, aos alijados do sistema educacional. O fato é que o fenômeno existe.
Bem, os termos em questão, conforme retirei de um post do facebook (“mim adiciona”, “agente vai”, “concerteza” etc.) merecem uma observação isenta, devemos estar librtos do inevitável mal-estar. Como uma justificativa primeira, em nome da liberdade que proponho, está o argumento que o pronome “você” não nos causa nenhum dissabor ao ouvi-lo. Sua origem etimológica, no entanto, encontra-se na expressão de tratamento de deferência “vossa mercê”, que se transformou sucessivamente em vossemecê, vosmecê, vancê e você. Por um lado, a democracia das relações fez sem sentido a deferência, mas, por outro, os ouvidos sensíveis, em princípio, devem ter estranhado e condenado o “você”.
O termo “concerteza” é o que mais gosto. Ora, “com certeza” significa uma certeza plena, robusta, quase incontestável, não é? Surgiu, pois, um significado que carecia de outro significante e o “com”, enquanto partícula acompanhadora (não sei a metalinguagem adequada), aproxima-se à palavra “certeza” para deixar a certeza mais certeza, e, ainda, o “m” do “com”, faz uma concessão à norma padrão e apolinicamente se metamorfoseia em “n”, e, por fim, agarra a certeza e saem juntinhos: concerteza.
Vou adotar o concerteza, porque ele vai se tornar a pedra de toque da intelectualidade.
A própria ignorância das regras do jogo, ao escrever erradamente, é sintomática. Por que alguns condenam e no mesmo sistema alguns adotam? A situação é bastante complexa e abriga no seu âmago um problema infinitamente maior que o erro em relação à norma que estabelecemos como padrão. O que acontece? Eles, os errados, se comunicam sem precisar do sistema e na própria expressão subjaz uma poderosa crítica aos padrões estabelecidos. Ora, eles, os errados, não se importam conosco, os certos, concerteza não se importam com as nossas certezas, mas nós precisamos nos importar com eles, sob pena do nosso fracasso enquanto professores. Eles não precisam de nós, mas nós precisamos deles.
Ora, as mudanças estão ocorrendo e da insensibilidade criadora dos errados, no que se refere à norma padrão, nós devolvemos insensibilidade também. Mas não há nenhuma grandeza na nossa insensibilidade. Há, sim, preconceito, afastamento social e estagnação.
Há um aspecto ideológico, também, no nosso preconceito às inovações linguísticas que precisamos superar. É nesse aspecto, aliás, que deve repousar o desconforto. Estamos acostumados a discriminar quem fala ou escreve erradamente. Quando uma pessoa com pouca formação apresenta um argumento poderoso que incomoda a elite, aplica-se este recurso ideológico desautorizando o referido discurso como se quem não fala ou escreve corretamente, segundo os padrões da norma culta, não pensa corretamente. Falácia perversa de exclusão. Um interlocutor honesto, na mais profunda acepção da palavra, deve corrigir uma argumentação, falada ou escrita, se for o caso, depois de aferir a qualidade da informação em termos de conteúdo. A inteligência, a perspicácia, a consciência não prescindem de formação. Conheço muito analfabetos que me apresentaram respostas sábias em detrimentos de intelectuais que arranham a questão até, por vezes, cerceados pelos próprios estudos. Talvez seja por conta disso mesmo que se procura tanto, academicamente, aproximar o pensamento culto à contribuição popular. Por vezes, numa apresentação procuramos acertar a todo custo o nome desse o daquele pesquisador estrangeiro por conta da corriqueira desautorização do nosso discurso. Até ao corrigir uma avaliação, por exemplo, se tem que tomar o maior cuidado para, primeiramente, não adentrar ao conteúdo inibido pelos erros ortográficos. Erros ortográficos podem até ser passíveis de nota, mas preservando a qualidade das ideias. No caso, por fim, de um estudante de letras, por exemplo, uma consciência importante está em aprimorar-se nos padrões cultos, sem estagnação, antes de avaliar a subversão, sempre saudável.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O SER ARQUIVADO

Mauricéia Gonçalves de Magalhães Santos


“A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas.” Marx.

Ítalo Moriconi reúne em uma coletânea Os cem melhores contos brasileiros do século. Dentro desta compilação há contos primorosos, dos mais variados autores, que desenham o século XX com rigorosa maestria, trazendo à lume um percurso literário e histórico de nossas letras. Na segunda metade do século XX, notadamente nos anos 70, temos o apogeu do conto no Brasil: a qualidade deste gênero supera a da década anterior, afirma Ítalo Moriconi. Intensificam-se os impulsos revolucionários dentro de uma atmosfera de repressão e violência política. O consumismo exacerbado, a internacionalização e o capitalismo selvagem que anula gradativamente os seres, são os motes do contista desta época, para trazer à tona uma realidade que se revela obscura, assustadora e alienante.
Dentre os vários contos da obra de Moriconi, selecionamos O Arquivo (SANT’ANNA,  2009, p.382-384), de Victor Gildice que seguramente continua tão atual quanto na época em que foi lançado. O cenário é o do proletariado e, inserido nele, sua degradação nas mãos do capital, do mercado que corrompe e extingue a essência do ser.
Nosso protagonista, "joão”, em minúsculas mesmo (des) constrói-se gradativa e paradoxalmente durante uma breve narrativa que se revela-se, a priori, nonsense. A pequenez, a nulidade, o fenômeno da reificação, este refletido por Luckàcs em sua obra História e consciência de classe (LUCKÁCS, 2003), é evidenciado neste pequeno conto de Gildice. Tal reificação, nos termos de Luckács, baseia-se num fato de uma relação entre pessoas tomar o caráter de uma coisa, ocultando o traço de sua essência fundamental, isto é, a relação entre os homens. As relações reificadas são representadas a partir das (in) ações do protagonista deste conto.
Ao iniciarmos a leitura, somos surpreendidos com uma narrativa singular e, à medida que o texto avança, temos a necessidade de voltar ao seu início, porque, equivocadamente, acreditamos que há algo de desusado na elaboração deste. Vejamos o início da história:

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso.  Limitou- se a sorrir, a agradecer ao chefe. (SANT’ANNA,  2009, p.382).

Quais reflexões podemos extrair desta narrativa? Partimos, deste modo, das seguintes assertivas: joão, funcionário comum, tem seu ordenado reduzido gradualmente ao longo de sua trajetória, um rapaz novo e, teoricamente, com fôlego para buscar sua ascensão profissional. O que acontece, contraditoriamente, é um processo de retrocesso, não só salarial, mas, também, espacial, e principalmente humano. Diante destes decréscimos salariais, joão se vê obrigado a mudar de casa e ficar mais distante do centro da cidade: “Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.” (SANT’ANNA, 2009, p.382). E, conforme os anos iam passando, as “recompensas” aconteciam: o segundo corte salarial, “a empresa atravessava um período excelente”, muitos sorrisos, agradecimentos, contentamentos, novas mudanças, joão começa a comer menos, e isto o ajuda, afinal, está mais esguio, a pele torna-se menos rosada. O narrador, ironicamente, afirma que joão prossegue em sua “luta”, apesar de supostas intrigas de colegas que o invejam. Ele não desiste e passa a trabalhar mais duas horas diárias, como recompensa “ganha” mais um decréscimo em seu salário, rebaixamento de posto e, além disso, menos cinco dias de férias. A narrativa vai tomando consequências inusitadas, joão deixa de jantar, estava “mais ágil”, “mais leve”, as roupas tornam-se desnecessárias. E a vida vai passando com “novos prêmios”, “novas alegrias”. Quando completou sessenta anos, seu salário correspondia a dois por cento do inicial. O processo de declínio é enaltecido e aclamado sarcasticamente pelo narrador:

O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo. O corpo era um monte de rugas sorridentes. (SANT’ANNA, 2009, p.383).

Ao final da narrativa, joão, então, com quarenta anos de serviço, é convocado pela chefia e tem sua função reduzida, agora, é limpador de sanitários e, por conta da eliminação do salário, terá de pagar para se manter na empresa. Agradece todos os benefícios e pede sua aposentadoria, mas esta lhe é negada. Diante de tantas benesses, joão não consegue emitir qualquer argumento e afasta-se: “O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu.  A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento. joão transformou-se num arquivo de metal.” (SANT’ANNA,  2009, p.384).
A partir de um nome comum, joão, a personagem revela-se metonímia da classe operária, que sofre com as pressões e as opressões do mercado capitalista, em que a busca desenfreada por ascensão é incrustrada como sendo algo que pode lhes oferecer uma felicidade, que revela-se forjada. Sabe-se que à medida que os desejos cessam, em que são “satisfeitos”, outras prioridades surgem. No caso do conto, é a degradação, a redução absurda que simbolizam os desejos e anseios de joão. O acúmulo de coisas, de valores impostos pelo mercado transformam o ser humano em produto, em coisa a ser consumida. A satisfação, que é felicidade, está atrelada à momentos que proporcionam prazer fora do capital, fora do próprio ganho, do auto centramento e que sai do plano egoísta, é algo altamente subjetivo, e perceber a vida sob outros vieses, não capitalistas, está cada vez mais problemático. A personagem ilustra, quando se transforma em arquivo, o que de fato ocorre com os “objetos” “joões” assalariados, a ideia de estes são apenas coisas a serem arquivadas e, posteriormente, incineradas para serem substituídas por outras peças, a fim da contínua manutenção do mercado. O capital privilegia a sua própria satisfação – neste caso a monetária - e isso provem de um processo de massificação, alienação e nulidade coletiva que remonta os séculos, desde antes da Revolução Industrial, mesmo que para isso o ser seja sacrificado em defesa do ter. O conto de Gildice explica o quão impiedoso é o sistema no qual estamos inseridos e, mesmo que involuntariamente, estamos nos submetendo adestradamente.

REFERÊNCIAS

SANT’ANNA, A. O Arquivo. In: MORIGONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do Século. São Paulo: Objetiva, 2009. p.382-384.
LUCKÁCS, George. História e consciência de classe. Estudos sobre a dialética Marxista. Trad. Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GASSET, José Ortega Y. A desumanização da arte. Trad. de Ricardo Araújo. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2008.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

SOBRE O FEMINISMO

Dante Gatto

A condição das mulheres na sociedade patriarcal passou, há algum tempo, a ser uma das minhas preocupações por conta do estudo do trágico que me fiz adepto academicamente, mas, principalmente, minha preocupação em relação às mulheres é da ordem do cotidiano e penso que, neste aspecto, não sou diferente aos demais homens, machistas ou não. Um terreno inóspito, no entanto, quer seja ao estudo ou à vida como todos já experimentaram.
Ao buscar refletir nesse sentido me vi um tanto quanto desamparado, afinal, eu não tenho um útero e isto faz muito sentido ao movimento feminista se bem que ainda estou mais para aceitação do que para compreensão. Como Sócrates naquele conhecido Banquete, cujo tema escolhido foi o amor, recorreu a uma sacerdotisa, Diotima, eu recorri a uma feminista do meu círculo de amizade. Segue, abaixo, sem aspas ou recolhimento suas considerações acerca do feminismo:

Eis uma dialética do feminismo:
1)      Nascemos para amar. O amor suscita felicidade e, desde sempre buscamos correspondência nesse sentido;
2)      Há infinitos objetos amorosos que a vida e a cultura nos proporcionam: amamos nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos animais;
3)      A maneira íntima que, por vezes, o amor se projeta implica uma vontade de plenitude, de totalidade de tal forma que queremos entrar naquele corpo, tomar pose dele, ser parte dele, e um instinto feroz acompanha todo o envolvimento amoroso. Talvez, seja essa a forma mais profunda de amor, como a maternidade;
4)      Essa forma mais profunda de amor que busca uma unidade de dois pode envolver uma mulher;
5)      Essa mulher, inevitavelmente, está marcada por uma cultura que a determinou como objeto e posse de, pelo menos, um homem;
6)      A grandeza do ser está no seu potencial amoroso e a projeção mítica máxima está no Deus Pai, todo poderoso etc., à medida que o seu amor é incomensurável. “Amai o teu próximo como a ti mesmo”, sentenciou o Deus vivo;
7)      Ele (homem) a ama (mulher). Mas que amor é este? Diferente dos demais amores, porque mais orgânico, mais doloroso, mais inevitável, mais visceral, mas ainda ele não ama um igual, mas um objeto;
8)      A relação que persiste, ainda, entre homens e mulheres é de dominação, que implica vítimas e algozes num contexto em que todos são infelizes.
O feminismo é o grito da mulher negando a condição de objeto. Tal negação, no entanto, não se faz fácil, porque está incrustrado no inconsciente coletivo com uma legitimidade divina. Mas ela grita: “ama-me como a ti mesmo”. Ela grita: “vamos destruir a realidade que nos faz diferentes, tirar todos os escolhos da cultura que determina a sociedade dividida em sexo e nos faz a todos infelizes, ainda que você não perceba”. Tal revolução não é fácil, porque abala condicionamentos profundamente sedimentados com os quais nos reconhecemos, abalam as instituições todas moldadas para uma sociedade patriarcal.
Por fim, a quem beneficiaria sobremaneira toda uma revolução feminista (é como designo as transformações necessárias para uma sociedade sexualmente igualitária)? Beneficiaria ao homem, sobretudo, porque experimentariam uma condição amorosa plena. E o que implica isto? Ora, como já disse: implica a completude enquanto ser, isto é, a completa felicidade possível.

O feminismo é uma forma profunda e crítica de amor.

domingo, 3 de julho de 2016

LEITURA

Este artigo foi publicado, também, no jornal Tribuna de Tangará. Segue as referências abaixo: 
GATTO, Dante. Leitura. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 07, 13 nov. 2013.
Dante Gatto

            O vinho requer degustação que não mais é que beber com atenção. Vocês sabem: há de se agitar a taça, que não deve estar cheia, e à medida que agitamos devemos sentir seu aroma. Você não deve engolir imediatamente, mas deixe que o vinho caminhe pela sua boca. Depois, e só beber e sentir, novamente, quanto tempo o sabor permanecerá.
            O que fazemos, ordinariamente, é beber e o fazemos brutalizados pela premência desse cotidiano. Em última instância, a ordem é não sentir, não pensar, e calar o mais que possível os clamores do corpo em nome da produtividade e das regras do mercado. O grande desafio da vida está em preservar os sentimentos e sobreviver num mundo que o ignora, mas prescinde dele. Quanta violência há nesta ignorância, não é?
            Com a leitura acontece a mesma coisa. Desaprendemos a ler, porque desaprendemos, também, a sentir. As crianças sabem ler muito melhor que nós, por paradoxal que tal evidência possa parecer, ali, decifrando as primeiras palavras, por força do impulso humano de tentar apreender o mundo. Ora, as crianças ainda não estão à mercê do mundo. Elas ainda não entenderam as regras e os valores que, no mais das vezes, serão liberdade e prisão ao mesmo tempo. As crianças leem sentindo e nisto está a grande diferença.
            Vieram-me com um trocadilho que me pareceu muito significativo: “o tempo ruge”. Habitualmente, utilizamos urge (“o tempo urge”) que significa urgência, situação inadiável, iminência. Se a situação já se configurava opressora com tal urgência, o rugir conferiu um tom de ferocidade e implacabilidade que nos coloca num ritmo alucinante em que não é permitido sentir, mas absorver o mesmo ritmo e correr porque o monstro vem ai.
            A leitura carece de degustação, também, não é? Os estilos de época impõem ritmos particulares, mesmo a propensão de cada escritor. As vibrações da cena implicam vibrações espirituais. Há uma dialética de motivações internas ao texto que devem ser absorvidas para um adequado entendimento. E a atmosfera que permanece, em detrimento das palavras, que você não absorve na premência de fechar o livro e cumprir outra atividade?
            O que precisamos reconquistar é o tempo da cognição que absorve, também, os sentimentos e as emoções. A dificuldade nisto está em que esse tempo cognitivo não se ajusta ao tempo do cotidiano como deveria. Ora o tempo que ruge não nos permite sentir uma leitura. Todas as nossas ações deveriam estar revestidas da humanidade que seria o resultado da completude do ser, mas estamos inseridos em uma ordem pragmática que privilegia o ter, não é? O que significa isto? Apreendemos reduzidamente a vida, porque não damos atenção aos nossos sentimentos, porque – novamente – desaprendemos a sentir.
            Uma adequada leitura implica o respeito ao tempo cognitivo. Como isto se processa em cada um é de ordem particular e intransferível. Ontem, encontrei um velho conhecido, professor de literatura também, que se aposentou recentemente. Ele me contou sua breve história de aposentado. Num primeiro momento tentou promover um adeus aos livros, mas foi sem sucesso tal investida. Operou-se nele, neste processo, no entanto, como ele acredita, uma forma de recondicionamento. Sem a ditadura do tempo, leu algumas obras ainda não lidas e experimentou inédita emoção. Isto o levou a reler obras infinitamente lidas anteriormente e conhecidas, pensava ele, profundamente. Foi ai que o sentimento trágico da vida pegou fundo: tudo o que pensava saber era nada, era pouco, era superfície, como a própria vida. Uma criança muito pequena passava, neste momento, na calçada, de mãos dadas com a mãe, e ficou olhando-nos com uma curiosidade inquietadora. Meu velho amigo me disse: “Esta criança, por exemplo, sabe o que estou reaprendendo”. A criança sorriu luminosamente e a mãe protetora tratou de puxá-la pela mão e seguiram em frente, sem olhar para trás. Ele completou: “Ela sabe, mas está aprendendo desaprendendo”. Silêncio.

            Estou bobo aqui, diante de uma taça de vinho. As lágrimas. Vocês sabem das lágrimas? São aquelas gotas que escorrem quando se agita a taça. Não se esqueça das lágrimas: elas dão ideia do corpo do vinho.