quinta-feira, 6 de outubro de 2016

LITERATURA: CRIAÇÃO E ANÁLISE

Dante Gatto

A análise literária prescinde da consciência da criação. Vamos refletir neste sentido.
Lukács (2009, p.39), diante do problema da filosofia histórica das formas argumenta que na época pós-helênica perdeu-se a periodicidade filosófica, “[...] os gêneros se cruzam num emaranhado inextrincável”. O objetivo não é mais claro. Mas “a imanência do sentido à vida [...] por maiores que sejam as comoções, pode perder o brilho, mais jamais ser totalmente dissipada. (LUKÁCS, 2009, p.39).
            Só a grande épica, defende Lukács (2009, p.44), pode dar forma à totalidade extensiva da vida. O que o drama pode fazer é dar forma à totalidade intensiva da essencialidade. No “aprisionamento formal”, tendo a existência perdido sua “totalidade espontaneamente integrada e presente aos sentidos”, o drama encontrou um mundo problemático, mas “capaz de tudo conter e fechado em si mesmo”.
O sujeito da épica, na grande épica, continua Lukács (2009, p.48), homem empírico da vida, tem sua presunção criadora e subjulgadora, mas transforma-se em homem comum da existência cotidiana, de modo tão inesperadamente óbvio, em humildade, em contemplação, em admiração muda perante o sentido de clara fulgência que se tornou visível a ele. Nas formas épicas menores, o sujeito enfrenta seu objeto de maneira mais soberana e autosuficiente. O narrador pode até observar “com o gesto frio e altivo do cronista” as manobras, absurdas para eles, do destino dos homens, “revelador de abismos e prazeroso para nós”; ainda que ele eleve à única realidade um pequeno recanto do mundo, ordenado, circundado de desertos caóticos e ilimitados da vida e cristalize esta experiência viva.

A completude dessas formas épicas, portanto, é subjetiva: um fragmento de vida é transposto pelo escritor num contexto que o põe em relevo, o salienta e o destaca da totalidade da vida; e a seleção e a delimitação trazem estampado, na própria obra, o selo de sua origem na vontade e no conhecimento do sujeito: elas são, em maior ou menor medida, de natureza lírica. (LUKÁCS, 2009, p.48-49).

Mircea Eliade (1992, p.28) argumenta que toda criação humana é uma réplica da cosmogonia. “A Criação do Mundo torna-se o arquétipo de todo gesto criador humano, seja qual for seu plano de referência”.
O romance, enquanto epopeia burguesa moderna, supõe, como o poema épico, uma visão total do mundo e da vida. Esta visão da totalidade na arte implica substituir à totalidade extensiva do real, a totalidade intensiva da essencialidade na coerência estética da obra de arte. Iracema não é simplesmente um anagrama de América, bem como Clara dos Anjos não é somente uma jovem negra vitimada pelo destino em um mundo reacionário e preconceituoso, mas ela é a representação artística, como caráter épico, de todas as mulheres negras.
Exemplar a consciência artística de Mário de Andrade bem como seu trabalho criador, na medida em que configurou Carlos, de Amar, verbo intransitivo como “constância cultural brasileira constatada”. (LOPEZ, 1999, p.18). Ora, Carlos se configurava o país, a nação, a pátria.
Devemos, pois, estabelecer uma espécie de pacto analítico orientador do exame aos nossos personagens e as situações narrativas, e isto implica uma adequada orientação metodológica.

REFERÊNCIAS

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico. 2. ed. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades, 2009.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
LOPEZ, T. P. A. Uma difícil conjugação. In: ANDRADE, M. Amar, verbo intransitivo, Idílio. 16. ed. Belo Horizonte: Villa Rica, 1999. p.9-44. 

sábado, 1 de outubro de 2016

CONCERTEZA ALGUMA CERTEZA

Luana Franavia de Souza Pinto 

O que significa aquele mal-estar que nos causa certos termos assumido por certo grupo de falantes, atualmente? Refiro-me, de uma forma muito geral: por um lado aos que não são sensíveis aos padrões adotados pela academia e, por outro, aos alijados do sistema educacional. O fato é que o fenômeno existe.
Bem, os termos em questão, conforme retirei de um post do facebook (“mim adiciona”, “agente vai”, “concerteza” etc.) merecem uma observação isenta, devemos estar librtos do inevitável mal-estar. Como uma justificativa primeira, em nome da liberdade que proponho, está o argumento que o pronome “você” não nos causa nenhum dissabor ao ouvi-lo. Sua origem etimológica, no entanto, encontra-se na expressão de tratamento de deferência “vossa mercê”, que se transformou sucessivamente em vossemecê, vosmecê, vancê e você. Por um lado, a democracia das relações fez sem sentido a deferência, mas, por outro, os ouvidos sensíveis, em princípio, devem ter estranhado e condenado o “você”.
O termo “concerteza” é o que mais gosto. Ora, “com certeza” significa uma certeza plena, robusta, quase incontestável, não é? Surgiu, pois, um significado que carecia de outro significante e o “com”, enquanto partícula acompanhadora (não sei a metalinguagem adequada), aproxima-se à palavra “certeza” para deixar a certeza mais certeza, e, ainda, o “m” do “com”, faz uma concessão à norma padrão e apolinicamente se metamorfoseia em “n”, e, por fim, agarra a certeza e saem juntinhos: concerteza.
Vou adotar o concerteza, porque ele vai se tornar a pedra de toque da intelectualidade.
A própria ignorância das regras do jogo, ao escrever erradamente, é sintomática. Por que alguns condenam e no mesmo sistema alguns adotam? A situação é bastante complexa e abriga no seu âmago um problema infinitamente maior que o erro em relação à norma que estabelecemos como padrão. O que acontece? Eles, os errados, se comunicam sem precisar do sistema e na própria expressão subjaz uma poderosa crítica aos padrões estabelecidos. Ora, eles, os errados, não se importam conosco, os certos, concerteza não se importam com as nossas certezas, mas nós precisamos nos importar com eles, sob pena do nosso fracasso enquanto professores. Eles não precisam de nós, mas nós precisamos deles.
Ora, as mudanças estão ocorrendo e da insensibilidade criadora dos errados, no que se refere à norma padrão, nós devolvemos insensibilidade também. Mas não há nenhuma grandeza na nossa insensibilidade. Há, sim, preconceito, afastamento social e estagnação.
Há um aspecto ideológico, também, no nosso preconceito às inovações linguísticas que precisamos superar. É nesse aspecto, aliás, que deve repousar o desconforto. Estamos acostumados a discriminar quem fala ou escreve erradamente. Quando uma pessoa com pouca formação apresenta um argumento poderoso que incomoda a elite, aplica-se este recurso ideológico desautorizando o referido discurso como se quem não fala ou escreve corretamente, segundo os padrões da norma culta, não pensa corretamente. Falácia perversa de exclusão. Um interlocutor honesto, na mais profunda acepção da palavra, deve corrigir uma argumentação, falada ou escrita, se for o caso, depois de aferir a qualidade da informação em termos de conteúdo. A inteligência, a perspicácia, a consciência não prescindem de formação. Conheço muito analfabetos que me apresentaram respostas sábias em detrimentos de intelectuais que arranham a questão até, por vezes, cerceados pelos próprios estudos. Talvez seja por conta disso mesmo que se procura tanto, academicamente, aproximar o pensamento culto à contribuição popular. Por vezes, numa apresentação procuramos acertar a todo custo o nome desse o daquele pesquisador estrangeiro por conta da corriqueira desautorização do nosso discurso. Até ao corrigir uma avaliação, por exemplo, se tem que tomar o maior cuidado para, primeiramente, não adentrar ao conteúdo inibido pelos erros ortográficos. Erros ortográficos podem até ser passíveis de nota, mas preservando a qualidade das ideias. No caso, por fim, de um estudante de letras, por exemplo, uma consciência importante está em aprimorar-se nos padrões cultos, sem estagnação, antes de avaliar a subversão, sempre saudável.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O SER ARQUIVADO

Mauricéia Gonçalves de Magalhães Santos


“A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas.” Marx.

Ítalo Moriconi reúne em uma coletânea Os cem melhores contos brasileiros do século. Dentro desta compilação há contos primorosos, dos mais variados autores, que desenham o século XX com rigorosa maestria, trazendo à lume um percurso literário e histórico de nossas letras. Na segunda metade do século XX, notadamente nos anos 70, temos o apogeu do conto no Brasil: a qualidade deste gênero supera a da década anterior, afirma Ítalo Moriconi. Intensificam-se os impulsos revolucionários dentro de uma atmosfera de repressão e violência política. O consumismo exacerbado, a internacionalização e o capitalismo selvagem que anula gradativamente os seres, são os motes do contista desta época, para trazer à tona uma realidade que se revela obscura, assustadora e alienante.
Dentre os vários contos da obra de Moriconi, selecionamos O Arquivo (SANT’ANNA,  2009, p.382-384), de Victor Gildice que seguramente continua tão atual quanto na época em que foi lançado. O cenário é o do proletariado e, inserido nele, sua degradação nas mãos do capital, do mercado que corrompe e extingue a essência do ser.
Nosso protagonista, "joão”, em minúsculas mesmo (des) constrói-se gradativa e paradoxalmente durante uma breve narrativa que se revela-se, a priori, nonsense. A pequenez, a nulidade, o fenômeno da reificação, este refletido por Luckàcs em sua obra História e consciência de classe (LUCKÁCS, 2003), é evidenciado neste pequeno conto de Gildice. Tal reificação, nos termos de Luckács, baseia-se num fato de uma relação entre pessoas tomar o caráter de uma coisa, ocultando o traço de sua essência fundamental, isto é, a relação entre os homens. As relações reificadas são representadas a partir das (in) ações do protagonista deste conto.
Ao iniciarmos a leitura, somos surpreendidos com uma narrativa singular e, à medida que o texto avança, temos a necessidade de voltar ao seu início, porque, equivocadamente, acreditamos que há algo de desusado na elaboração deste. Vejamos o início da história:

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso.  Limitou- se a sorrir, a agradecer ao chefe. (SANT’ANNA,  2009, p.382).

Quais reflexões podemos extrair desta narrativa? Partimos, deste modo, das seguintes assertivas: joão, funcionário comum, tem seu ordenado reduzido gradualmente ao longo de sua trajetória, um rapaz novo e, teoricamente, com fôlego para buscar sua ascensão profissional. O que acontece, contraditoriamente, é um processo de retrocesso, não só salarial, mas, também, espacial, e principalmente humano. Diante destes decréscimos salariais, joão se vê obrigado a mudar de casa e ficar mais distante do centro da cidade: “Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.” (SANT’ANNA, 2009, p.382). E, conforme os anos iam passando, as “recompensas” aconteciam: o segundo corte salarial, “a empresa atravessava um período excelente”, muitos sorrisos, agradecimentos, contentamentos, novas mudanças, joão começa a comer menos, e isto o ajuda, afinal, está mais esguio, a pele torna-se menos rosada. O narrador, ironicamente, afirma que joão prossegue em sua “luta”, apesar de supostas intrigas de colegas que o invejam. Ele não desiste e passa a trabalhar mais duas horas diárias, como recompensa “ganha” mais um decréscimo em seu salário, rebaixamento de posto e, além disso, menos cinco dias de férias. A narrativa vai tomando consequências inusitadas, joão deixa de jantar, estava “mais ágil”, “mais leve”, as roupas tornam-se desnecessárias. E a vida vai passando com “novos prêmios”, “novas alegrias”. Quando completou sessenta anos, seu salário correspondia a dois por cento do inicial. O processo de declínio é enaltecido e aclamado sarcasticamente pelo narrador:

O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo. O corpo era um monte de rugas sorridentes. (SANT’ANNA, 2009, p.383).

Ao final da narrativa, joão, então, com quarenta anos de serviço, é convocado pela chefia e tem sua função reduzida, agora, é limpador de sanitários e, por conta da eliminação do salário, terá de pagar para se manter na empresa. Agradece todos os benefícios e pede sua aposentadoria, mas esta lhe é negada. Diante de tantas benesses, joão não consegue emitir qualquer argumento e afasta-se: “O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu.  A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento. joão transformou-se num arquivo de metal.” (SANT’ANNA,  2009, p.384).
A partir de um nome comum, joão, a personagem revela-se metonímia da classe operária, que sofre com as pressões e as opressões do mercado capitalista, em que a busca desenfreada por ascensão é incrustrada como sendo algo que pode lhes oferecer uma felicidade, que revela-se forjada. Sabe-se que à medida que os desejos cessam, em que são “satisfeitos”, outras prioridades surgem. No caso do conto, é a degradação, a redução absurda que simbolizam os desejos e anseios de joão. O acúmulo de coisas, de valores impostos pelo mercado transformam o ser humano em produto, em coisa a ser consumida. A satisfação, que é felicidade, está atrelada à momentos que proporcionam prazer fora do capital, fora do próprio ganho, do auto centramento e que sai do plano egoísta, é algo altamente subjetivo, e perceber a vida sob outros vieses, não capitalistas, está cada vez mais problemático. A personagem ilustra, quando se transforma em arquivo, o que de fato ocorre com os “objetos” “joões” assalariados, a ideia de estes são apenas coisas a serem arquivadas e, posteriormente, incineradas para serem substituídas por outras peças, a fim da contínua manutenção do mercado. O capital privilegia a sua própria satisfação – neste caso a monetária - e isso provem de um processo de massificação, alienação e nulidade coletiva que remonta os séculos, desde antes da Revolução Industrial, mesmo que para isso o ser seja sacrificado em defesa do ter. O conto de Gildice explica o quão impiedoso é o sistema no qual estamos inseridos e, mesmo que involuntariamente, estamos nos submetendo adestradamente.

REFERÊNCIAS

SANT’ANNA, A. O Arquivo. In: MORIGONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do Século. São Paulo: Objetiva, 2009. p.382-384.
LUCKÁCS, George. História e consciência de classe. Estudos sobre a dialética Marxista. Trad. Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GASSET, José Ortega Y. A desumanização da arte. Trad. de Ricardo Araújo. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2008.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

SOBRE O FEMINISMO

Dante Gatto

A condição das mulheres na sociedade patriarcal passou, há algum tempo, a ser uma das minhas preocupações por conta do estudo do trágico que me fiz adepto academicamente, mas, principalmente, minha preocupação em relação às mulheres é da ordem do cotidiano e penso que, neste aspecto, não sou diferente aos demais homens, machistas ou não. Um terreno inóspito, no entanto, quer seja ao estudo ou à vida como todos já experimentaram.
Ao buscar refletir nesse sentido me vi um tanto quanto desamparado, afinal, eu não tenho um útero e isto faz muito sentido ao movimento feminista se bem que ainda estou mais para aceitação do que para compreensão. Como Sócrates naquele conhecido Banquete, cujo tema escolhido foi o amor, recorreu a uma sacerdotisa, Diotima, eu recorri a uma feminista do meu círculo de amizade. Segue, abaixo, sem aspas ou recolhimento suas considerações acerca do feminismo:

Eis uma dialética do feminismo:
1)      Nascemos para amar. O amor suscita felicidade e, desde sempre buscamos correspondência nesse sentido;
2)      Há infinitos objetos amorosos que a vida e a cultura nos proporcionam: amamos nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos animais;
3)      A maneira íntima que, por vezes, o amor se projeta implica uma vontade de plenitude, de totalidade de tal forma que queremos entrar naquele corpo, tomar pose dele, ser parte dele, e um instinto feroz acompanha todo o envolvimento amoroso. Talvez, seja essa a forma mais profunda de amor, como a maternidade;
4)      Essa forma mais profunda de amor que busca uma unidade de dois pode envolver uma mulher;
5)      Essa mulher, inevitavelmente, está marcada por uma cultura que a determinou como objeto e posse de, pelo menos, um homem;
6)      A grandeza do ser está no seu potencial amoroso e a projeção mítica máxima está no Deus Pai, todo poderoso etc., à medida que o seu amor é incomensurável. “Amai o teu próximo como a ti mesmo”, sentenciou o Deus vivo;
7)      Ele (homem) a ama (mulher). Mas que amor é este? Diferente dos demais amores, porque mais orgânico, mais doloroso, mais inevitável, mais visceral, mas ainda ele não ama um igual, mas um objeto;
8)      A relação que persiste, ainda, entre homens e mulheres é de dominação, que implica vítimas e algozes num contexto em que todos são infelizes.
O feminismo é o grito da mulher negando a condição de objeto. Tal negação, no entanto, não se faz fácil, porque está incrustrado no inconsciente coletivo com uma legitimidade divina. Mas ela grita: “ama-me como a ti mesmo”. Ela grita: “vamos destruir a realidade que nos faz diferentes, tirar todos os escolhos da cultura que determina a sociedade dividida em sexo e nos faz a todos infelizes, ainda que você não perceba”. Tal revolução não é fácil, porque abala condicionamentos profundamente sedimentados com os quais nos reconhecemos, abalam as instituições todas moldadas para uma sociedade patriarcal.
Por fim, a quem beneficiaria sobremaneira toda uma revolução feminista (é como designo as transformações necessárias para uma sociedade sexualmente igualitária)? Beneficiaria ao homem, sobretudo, porque experimentariam uma condição amorosa plena. E o que implica isto? Ora, como já disse: implica a completude enquanto ser, isto é, a completa felicidade possível.

O feminismo é uma forma profunda e crítica de amor.

domingo, 3 de julho de 2016

LEITURA

Este artigo foi publicado, também, no jornal Tribuna de Tangará. Segue as referências abaixo: 
GATTO, Dante. Leitura. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 07, 13 nov. 2013.
Dante Gatto

            O vinho requer degustação que não mais é que beber com atenção. Vocês sabem: há de se agitar a taça, que não deve estar cheia, e à medida que agitamos devemos sentir seu aroma. Você não deve engolir imediatamente, mas deixe que o vinho caminhe pela sua boca. Depois, e só beber e sentir, novamente, quanto tempo o sabor permanecerá.
            O que fazemos, ordinariamente, é beber e o fazemos brutalizados pela premência desse cotidiano. Em última instância, a ordem é não sentir, não pensar, e calar o mais que possível os clamores do corpo em nome da produtividade e das regras do mercado. O grande desafio da vida está em preservar os sentimentos e sobreviver num mundo que o ignora, mas prescinde dele. Quanta violência há nesta ignorância, não é?
            Com a leitura acontece a mesma coisa. Desaprendemos a ler, porque desaprendemos, também, a sentir. As crianças sabem ler muito melhor que nós, por paradoxal que tal evidência possa parecer, ali, decifrando as primeiras palavras, por força do impulso humano de tentar apreender o mundo. Ora, as crianças ainda não estão à mercê do mundo. Elas ainda não entenderam as regras e os valores que, no mais das vezes, serão liberdade e prisão ao mesmo tempo. As crianças leem sentindo e nisto está a grande diferença.
            Vieram-me com um trocadilho que me pareceu muito significativo: “o tempo ruge”. Habitualmente, utilizamos urge (“o tempo urge”) que significa urgência, situação inadiável, iminência. Se a situação já se configurava opressora com tal urgência, o rugir conferiu um tom de ferocidade e implacabilidade que nos coloca num ritmo alucinante em que não é permitido sentir, mas absorver o mesmo ritmo e correr porque o monstro vem ai.
            A leitura carece de degustação, também, não é? Os estilos de época impõem ritmos particulares, mesmo a propensão de cada escritor. As vibrações da cena implicam vibrações espirituais. Há uma dialética de motivações internas ao texto que devem ser absorvidas para um adequado entendimento. E a atmosfera que permanece, em detrimento das palavras, que você não absorve na premência de fechar o livro e cumprir outra atividade?
            O que precisamos reconquistar é o tempo da cognição que absorve, também, os sentimentos e as emoções. A dificuldade nisto está em que esse tempo cognitivo não se ajusta ao tempo do cotidiano como deveria. Ora o tempo que ruge não nos permite sentir uma leitura. Todas as nossas ações deveriam estar revestidas da humanidade que seria o resultado da completude do ser, mas estamos inseridos em uma ordem pragmática que privilegia o ter, não é? O que significa isto? Apreendemos reduzidamente a vida, porque não damos atenção aos nossos sentimentos, porque – novamente – desaprendemos a sentir.
            Uma adequada leitura implica o respeito ao tempo cognitivo. Como isto se processa em cada um é de ordem particular e intransferível. Ontem, encontrei um velho conhecido, professor de literatura também, que se aposentou recentemente. Ele me contou sua breve história de aposentado. Num primeiro momento tentou promover um adeus aos livros, mas foi sem sucesso tal investida. Operou-se nele, neste processo, no entanto, como ele acredita, uma forma de recondicionamento. Sem a ditadura do tempo, leu algumas obras ainda não lidas e experimentou inédita emoção. Isto o levou a reler obras infinitamente lidas anteriormente e conhecidas, pensava ele, profundamente. Foi ai que o sentimento trágico da vida pegou fundo: tudo o que pensava saber era nada, era pouco, era superfície, como a própria vida. Uma criança muito pequena passava, neste momento, na calçada, de mãos dadas com a mãe, e ficou olhando-nos com uma curiosidade inquietadora. Meu velho amigo me disse: “Esta criança, por exemplo, sabe o que estou reaprendendo”. A criança sorriu luminosamente e a mãe protetora tratou de puxá-la pela mão e seguiram em frente, sem olhar para trás. Ele completou: “Ela sabe, mas está aprendendo desaprendendo”. Silêncio.

            Estou bobo aqui, diante de uma taça de vinho. As lágrimas. Vocês sabem das lágrimas? São aquelas gotas que escorrem quando se agita a taça. Não se esqueça das lágrimas: elas dão ideia do corpo do vinho.

terça-feira, 21 de junho de 2016

A CONDIÇÃO FEMININA: DO ALIJAMENTO SOCIAL AO CORAÇÃO SELVAGEM

Silvana Verciano

Desde o nascimento, a mulher traz o estigma das responsabilidades peculiares, herdadas desde a antiguidade, cuja maior evidência está na sagrada escritura: Deus, ao expulsar o primeiro casal do paraíso, Adão e Eva, decreta à mulher, como forma de punição (por terem pecado), que a mesma teria as suas dores multiplicadas, ao dar a luz à filhos e o desejo dela seria somente para o seu marido e, em contrapartida ele a dominaria. A história sagrada está na base do papel da mulher na sociedade. A ela é relegada a posição de auxiliar, sujeita a mando e desmandos do homem. Ficou também designada ao cuidado da casa, dos filhos, do marido e tudo que ela fizer vai girar em torno da família, como se ela não tivesse vida própria, como se necessitasse da autorização do chefe da casa para respirar. Alias ainda hoje o texto de Gênesis (3.16) é usado para justificar a submissão feminina. Com efeito, a Bíblia delineou o modelo de representação lógica da mulher, enfatizado pelo cristianismo medieval como forma de controle que perdura até os dias de hoje.
A personagem Joana do romance Perto do Coração Selvagem (1944), de Clarice Lispector, é a representação da própria inquietação, é a imagem da transgressão, do relançar-se contínuo de uma força que se sustenta nessa própria condição, na ruptura e na descontinuidade.  Temos ainda uma mulher, Joana, em busca do sentido de sua existência que se vê diante dos desafios do dia a dia, das convenções sociais e religiosa, relações familiares entre outras situações. Enfim, Clarice nos traz diversas possibilidades de se pensar o papel social da mulher, de problematiza-lo, enfrenta-lo e refletir sobre tal condição e submissão. Nesta obra a autora aponta a situação dramática da mulher dentro da estrutura social:

Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão. – Meu Deus! – não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar pela morte. Eu pensava: nem a liberdade de ser infeliz se conservava porque se arrasta consigo outra pessoa. (LISPECTOR, 1980, p.159).

Está nisso uma ideia de subversão às regras ao não se submeter à supremacia do discurso masculino, é uma ameaça à representação estável buscada e idealizada por seu marido Otávio, enquanto representante na narrativa do mundo patriarcal. Afinal, quem disse que é dever da mulher esperar o marido de volta do trabalho, alimentar bem os filhos, cuidar da educação dos mesmos, e ao mesmo tempo, cuidar das obrigações do lar, como limpar, lavar, passar e cozinhar? São apenas convenções sociais reproduzidas através de várias instâncias sociais dentre elas a Igreja, o Estado e a Família. Pode-se notar em Perto do Coração Selvagem uma identidade feminina que luta para apropriar-se de si mesma, longe do reflexo do cônjuge, rompendo com definições preconcebidas.
Assim, a escritora aponta a trágica situação da mulher dentro da estrutura social. Em determinado momento, ela deseja se libertar da rotina que lhe é imposta pela vida cotidiana: ou ela se molda e se torna uma mulher de acordo com as convenções e expectativas de uma determinada sociedade; ou ela não se enquadra, e é rejeitada por ser diferente. A quebra da rotina trará a sensação de liberdade, no entanto provocará sentimentos de angústia e de medo diante da situação nova; e se a rotina é mantida o enfado tende a se agravar. E assim, o ser mulher vai destruindo e enfraquecendo os laços que a une a própria vida, isto é, ao coração selvagem.
Perto do Coração Selvagem, cabe lembrar novamente teve sua primeira publicação em 1944, mas, não obstante todas as conquistas das mulheres nesses últimos sessenta anos, a tensão trágica permanece: a necessidade de se libertar dos paradigmas do cotidiano se contrapõe à convencionalidade e expectativas da sociedade, isto é, a aceitação fere á consciência enquanto ser e a rejeição implica a exclusão do quadro social que, por condição humana, anseia por ser aceita.
A dramaticidade da situação ganhou relevâncias nesse momento histórico sob a evidência da cultura do estupro e da contraditória valorização da condição de “bela, recatada e do lar”. Implicações claras do alijamento social da mulher da participação social, relegando-a à patriarcal submissão e perspectivas fascistas. E a mensagem de Lispector se faz pertinente mais do que nunca. Da tensão que se insinua vigorosa, para onde devemos ir? O próprio título do romance diz tudo: devemos ir para mais parte do coração selvagem, conquistando nossa condição humana.

Referências

LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
BÍBLIA SAGRADA. 43. ed. São Paulo: edição Pastoral Paulus, 2001.

domingo, 12 de junho de 2016

O INFERNO NO IMAGINÁRIO INFANTIL: UMA REFLEXÃO PARA BRASILEIROS

Clairton José Weber

Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicado pela primeira vez há mais de setenta anos (em 1938, pela José Olympio), temos, novamente a narração da sina dos retirantes nordestinos. Ramos coloca em cena uma família: pai, mãe, dois filhos pré-adolescentes e a cachorra Baleia.
Nosso objetivo aqui é estabelecer uma comparação entre o que se passa entre um dos filhos de Fabiano (personagem protagonista da novela de Graciliano Ramos) e o personagem principal do romance de James Joyce Retrato do artista quando jovem (publicado em 1916, narra experiências de infância e adolescência de Stephen Dedalus, alter ego do autor), no que concerne especificamente à concepção do que seja o inferno.
Numa determinada idade – todos os pais sabem disso –, as crianças estão impregnadas dos “por ques”. Querem saber tudo e não se contentam com uma rala explicação. De alguma forma precisam materializar o que lhes chega por palavras. A palavra inferno surge na vida do “menino mais velho” – assim eram chamados os filhos de Fabiano, pelo narrador de Vidas Secas, quando o pai recebe uma benzedeira para curar da “espinhela caída” – costume mantido até hoje, inclusive aqui em Tangará da Serra. A benzedeira, sinhá Terta usava um linguajar estranho que o menino não entendeu:

Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de sinhá Terta, pediu informações. Sinhá Vitória [a mãe], distraída, aludiu vagamente a um certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros. (RAMOS, 1986, p. 54).

            Ainda no mesmo dia, o menino insistiu, então: “Sinhá Vitória falou em espetos quentes e fogueiras. – A senhora viu? Aí sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente aplicou-lhe um cocorote.” (RAMOS, 1986, p. 54).
No outro lado do mundo, uma personagem de James Joyce, também se impressionava com a descrição do inferno. O garoto estudava num colégio administrado por padres. Os professores, naturalmente padres. Lá a descrição do inferno vem com todos os detalhes, o que impregnou penosas impressões no jovem Dedalus.
Os sermões que se estenderiam por quatro dias como parte da comemoração do aniversário de São Francisco Xavier, despertou a alma do jovem Delalus para um desespero sem amparo. “A débil claridade do medo tornou-se em terror  do espírito, quando a voz rouquenha do pregador derramou morte dentro de sua alma.” (JOYCE, 1987, p. 118). A longa reflexão do jovem Dedalus se dá embalada pelas sugestões do pregador e o narrador passa da morte ao julgamento que aprofunda o sentimento trágico da vida no jovem protagonista. Na medida em que ele recorda seu passado, faz seu julgamento. “A morte, a causa de terror para os pecadores, é o abençoado momento para aquele que caminhou pelo caminho reto, cumprindo plenamente os deveres da sua estada na vida [...]” (JOYCE, 1987, p. 120).
Stephen Dedalus tinha lá os seus “pecados” – os pecados dos seus dezesseis anos vividos sem muitas regras –, divagava durante o sermão do Padre Arnall. Julgou-se culpado e condenado ao fogo do inferno que nunca apaga. Ouviu atentamente o sermão que descreveu a queda de Lúcifer, Adão e Eva e a passagem de Jesus Cristo sobre a terra. “O inferno é uma estreita, negra e sórdida prisão fétida, uma habitação de demônios e de almas perdidas, cheia de fogo e de fumaça” (JOYCE, 1987, p. 125), enumerava o pregador. E Dedalus se imaginou neste lugar.
Nas páginas que seguem, com riqueza de detalhes, o narrador (pelos sermões do padre) vai descrevendo o inferno. Fala do fogo que não emite nenhuma luz e diferentemente do fogo como conhecemos (o fogo terrestre) que consome e se consome, o fogo do inferno nunca termina. Fala do tormento dos condenados, do lamento dos pecadores e do tempo perdido: “Tempo existe, tempo existiu, mas tempo não existirá mais!” (JOYCE, 1987, p. 128). Eis a sentença trágica dos pecadores. E o jovem, diferentemente do filho mais velho de Fabiano, obteve, mesmo sem ter solicitado, uma descrição do inferno. “Stephen desceu a nave da capela, com as pernas tremendo e o couro cabeludo se arrepiando em sua cabeça como se as mãos de fantasmas o estivessem tocando.” (JOYCE, 1987, p. 129).
Mas o Padre Arnall não parou por aí. No dia seguinte, retoma o assunto enumerando as penas a que são submetidos os pecadores, já no inferno. A primeira é a da perdição: “[...] os danados no inferno, para seu maior tormento, têm uma compreensão total daquilo que perderam e compreendem que devido aos seus pecados o perderam para sempre.” (JOYCE, 1987, p. 132). Depois fala do castigo da consciência. Extensão e intensidade. “Ilimitada extensão de tormento, incrível intensidade de sofrimento, incessante variedade de tortura – [...]” (JOYCE, 1987, p. 135). Isso tudo, por toda a eternidade.
No posfácio da edição de Vidas Secas, consultado para esse artigo, Valores e misérias das vidas secas o professor Álvaro Lins dá o tom do narrador da obra brasileira: “Com uma fria impassibilidade, o romancista contempla a miséria humana de seus personagens. Não lhes concede a mínima piedade.” (RAMOS, 1986, p. 131).
De qualquer forma, se o Ocidente legou-nos uma concepção terrível de inferno com uma punição implacável, a miséria estética de Ramos evitou tal apreensão, deixando à vida terrena, calcinada pela seca, toda a imensidade do sofrimento infernal, com a utopia do céu de Baleia, pela remissão da morte: “Baleia tremia toda, a cabecinha fatigada na pedra. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás”. (RAMOS, 1986, p. 91).
Quanta desesperança, por vezes, a realidade brasileira nos oferece, como a seca de Graciliano, anunciando a redenção transcendental como única saída.
        
REFERÊNCIAS
JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Trad. José Geraldo Vieira. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 57 ed. São Paulo: Record, 1986.